segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Califórnia - Escanção

 

Em uma rápida revisão dos temas que já tratamos aqui nesse espaço, em busca de um caminho para o artigo desta edição, deparamo-nos com uma importante falha; em tantos anos que estamos aqui juntos nunca demos atenção a Califórnia. Pois sim, já falamos dos vinhos do Canadá, dos vinhos do estado de Nova York, mas nunca daquele que é por larga margem o principal produtor da América do Norte. Pois sim, os Estados Unidos são o 4º maior produtor global e tal é a importância da California que, fosse ela um país independente ainda sustentaria esse posto, como o 4º maior produtor do mundo, respondendo por 80% da produção Americana.

Interessante imaginar que, houvesse a história caminhado de outra forma, estaríamos aqui falando dos vinhos do México, não dos Estados Unidos. A Califórnia inicia sua história como território espanhol e em seguida a independência permanece como parte do território mexicano, até sua anexação pelos Estados Unidos em 1847, quando a vitivinicultura já era ali uma realidade desde tempos coloniais, tendo seu início pelas mãos dos missionários espanhóis, tal qual se passou com Chile e Argentina, inclusive com a mesma casta predominante, a Listán Prieto, aqui chamada pelo sinônimo Mission. Mas embora presente, falamos ainda de uma vitivinicultura nascente e voltada para um consumo local limitado, em uma região de pequenos e esparsos povoados.

O primeiro ponto de virada para a Califórnia vem em 1849, com uma descoberta dourada, literalmente! A descoberta de jazidas de ouro na região provoca uma corrida pelo metal precioso, levando a uma explosão populacional e consequentemente da demanda, o que leva ao crescimento acelerado da indústria local, com vinícolas e vinhedos por todos os cantos. Até as últimas décadas do século XIX praticamente todas as regiões hoje demarcada na Califórnia já tinham sido em maior ou menor nível exploradas para a produção de vinhos.

Mas de um início brilhante vieram décadas de problemas e ostracismo; filoxera, lei seca e um público com o paladar voltado para vinhos mais doces apagaram parte das glórias passadas e assim permaneceu até meados dos anos 1960. Nesse momento Robert Mondavi inaugura sua vinícola e na sequência vários importantes investimentos surgem na região, esforços que seriam coroados com o histórico “Julgamento de Paris” em 1976, quando a vitória de vinhos californianos contra grandes ícones franceses renovou as atenções do público, local e global, atraindo investimentos e abrindo as portas do mercado.

A vitivinicultura californiana é regida pelo mar. As águas sempre frias do Pacífico contrastam com as altas temperaturas no interior do estado, de forma que sempre que as temperaturas sobem em terra a elevação do ar quente “puxa” o ar frio do oceano, o que em combinação com o relevo local produz uma ampla variedade de micro climas, onde a depender de formações montanhosas os ventos frios podem penetrar por mais de 100km continente adentro, trazendo o refresco que, combinado ao clima seco e estável a época da colheita permite a obtenção de uvas em níveis ótimos de maturação, mas sempre com boa acidez.

Por certo que nem sempre esse é o caso; demandas de mercado, estimuladas por uma crítica alinhada aos gostos de Robert Parker, valorizando vinhos de maior extração e potência, em detrimento da elegância, deixou sua marca na produção local, com tantos tintos sólidos, quase para se comer de garfo e faca, acompanhados de brancos densos e amanteigados. São vinhos que contam com seu séquito de seguidores fiéis, mas quem tem perdido espaço em tempos recentes com uma demanda crescente por vinhos de maior frescor e equilíbrio.

Outra característica relevante é o fato que alguém com boa disposição (e fundos financeiros) não tem grande dificuldade em criar sua marca e produzir seus vinhos na Califórnia, contando o estado com um grande número proprietários de vinhedos, muitos deles históricos e reconhecidos, que não produzem vinhos mas vendem as uvas, por preços elevados. O Napa Valley e a vizinha Sonoma, duas regiões permeadas de propriedades pertencentes a empresários, artistas, esportistas, executivos e investidores, na ativa ou aposentados, são prolíficas em vinícolas nesse formato, onde os vinhedos são poucos ou até inexistentes, mas a fonte principal das uvas são contratos de longo prazo com viticultores de alto nível.

Certamente a Califórnia conta com sua dose de desafios, com uma redução na demanda por vinhos comerciais de menor custo, produzidos nos campos irrigados do Central Valley, além de eventos climáticos extremos, como secas intensas e incêndios de larga escala, mas a sede do consumidor pelos seus vinhos, a rica história de seus vinhedos e a qualidade elevada dos líquidos dali oriundos é a garantia que, ao menos no futuro em vista, esta seguirá sendo a grande usina que energiza toda a indústria do vinho nos Estados Unidos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não se esqueça de deixar o seu contato para eventuais respostas, ok?

Postagem em destaque

Enoturismo em Mendoza

Como parte de nossa nova parceria com a LATAM Travel Shopping Frei Caneca , teremos no mês de Novembro/2016 um imperdível tour por alguma...