Em uma rápida revisão dos temas que já tratamos aqui
nesse espaço, em busca de um caminho para o artigo desta edição, deparamo-nos
com uma importante falha; em tantos anos que estamos aqui juntos nunca demos
atenção a Califórnia. Pois sim, já falamos dos vinhos do Canadá, dos vinhos do
estado de Nova York, mas nunca daquele que é por larga margem o principal
produtor da América do Norte. Pois sim, os Estados Unidos são o 4º maior
produtor global e tal é a importância da California que, fosse ela um país
independente ainda sustentaria esse posto, como o 4º maior produtor do mundo,
respondendo por 80% da produção Americana.
Interessante imaginar que, houvesse a história
caminhado de outra forma, estaríamos aqui falando dos vinhos do México, não dos
Estados Unidos. A Califórnia inicia sua história como território espanhol e em
seguida a independência permanece como parte do território mexicano, até sua
anexação pelos Estados Unidos em 1847, quando a vitivinicultura já era ali uma
realidade desde tempos coloniais, tendo seu início pelas mãos dos missionários
espanhóis, tal qual se passou com Chile e Argentina, inclusive com a mesma
casta predominante, a Listán Prieto, aqui chamada pelo sinônimo Mission. Mas
embora presente, falamos ainda de uma vitivinicultura nascente e voltada para um
consumo local limitado, em uma região de pequenos e esparsos povoados.
O primeiro ponto de virada para a Califórnia vem em
1849, com uma descoberta dourada, literalmente! A descoberta de jazidas de ouro
na região provoca uma corrida pelo metal precioso, levando a uma explosão
populacional e consequentemente da demanda, o que leva ao crescimento acelerado
da indústria local, com vinícolas e vinhedos por todos os cantos. Até as últimas
décadas do século XIX praticamente todas as regiões hoje demarcada na
Califórnia já tinham sido em maior ou menor nível exploradas para a produção de
vinhos.
Mas de um início brilhante vieram décadas de problemas
e ostracismo; filoxera, lei seca e um público com o paladar voltado para vinhos
mais doces apagaram parte das glórias passadas e assim permaneceu até meados
dos anos 1960. Nesse momento Robert Mondavi inaugura sua vinícola e na
sequência vários importantes investimentos surgem na região, esforços que
seriam coroados com o histórico “Julgamento de Paris” em 1976, quando a vitória
de vinhos californianos contra grandes ícones franceses renovou as atenções do
público, local e global, atraindo investimentos e abrindo as portas do mercado.
A vitivinicultura californiana é regida pelo mar. As
águas sempre frias do Pacífico contrastam com as altas temperaturas no interior
do estado, de forma que sempre que as temperaturas sobem em terra a elevação do
ar quente “puxa” o ar frio do oceano, o que em combinação com o relevo local
produz uma ampla variedade de micro climas, onde a depender de formações
montanhosas os ventos frios podem penetrar por mais de 100km continente
adentro, trazendo o refresco que, combinado ao clima seco e estável a época da
colheita permite a obtenção de uvas em níveis ótimos de maturação, mas sempre
com boa acidez.
Por certo que nem sempre esse é o caso; demandas de
mercado, estimuladas por uma crítica alinhada aos gostos de Robert Parker,
valorizando vinhos de maior extração e potência, em detrimento da elegância,
deixou sua marca na produção local, com tantos tintos sólidos, quase para se
comer de garfo e faca, acompanhados de brancos densos e amanteigados. São
vinhos que contam com seu séquito de seguidores fiéis, mas quem tem perdido
espaço em tempos recentes com uma demanda crescente por vinhos de maior frescor
e equilíbrio.
Outra característica relevante é o fato que alguém com
boa disposição (e fundos financeiros) não tem grande dificuldade em criar sua marca
e produzir seus vinhos na Califórnia, contando o estado com um grande número proprietários
de vinhedos, muitos deles históricos e reconhecidos, que não produzem vinhos
mas vendem as uvas, por preços elevados. O Napa Valley e a vizinha Sonoma, duas
regiões permeadas de propriedades pertencentes a empresários, artistas,
esportistas, executivos e investidores, na ativa ou aposentados, são prolíficas
em vinícolas nesse formato, onde os vinhedos são poucos ou até inexistentes,
mas a fonte principal das uvas são contratos de longo prazo com viticultores de
alto nível.
Certamente a Califórnia conta com sua dose de
desafios, com uma redução na demanda por vinhos comerciais de menor custo,
produzidos nos campos irrigados do Central Valley, além de eventos climáticos
extremos, como secas intensas e incêndios de larga escala, mas a sede do
consumidor pelos seus vinhos, a rica história de seus vinhedos e a qualidade
elevada dos líquidos dali oriundos é a garantia que, ao menos no futuro em
vista, esta seguirá sendo a grande usina que energiza toda a indústria do vinho
nos Estados Unidos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não se esqueça de deixar o seu contato para eventuais respostas, ok?