sexta-feira, 10 de julho de 2020

Canadá - Revista Escanção


A produção global de vinhos, ainda que liderada pela Europa, conta já há muito com importantes países do Novo Mundo entre os mais destacados produtores, com vinhos de qualidade e bom preço em volumes expressivo. Entre os maiores volumes produzidos, encontraremos países como Argentina, Austrália e Estados Unidos. Precisamente os Estados Unidos ocupam uma posição muito especial, como o 4º maior produtor mundial e um dos principais mercados consumidores.
Ainda que os grandes volumes, de produção e consumo, estejam nos Estados Unidos, não é estes país produtor exclusivo na América do Norte; afinal temos um importante volume de produção ao Sul, no México, além de vinhos de classe internacional, que receberão nossa atenção hoje, ao Norte, no Canadá.
Com mais de 12.000ha de vinhedos, o Canadá ainda é um produtor tímido no cenário global; basta citar que apenas o pequenino Napa Valley tem uma área de vinhedos superior. Mas o que deixa a mais notável impressão aqui é não o volume, mas sim a qualidade dos vinhos, já elevada e ainda em evolução.
As referências imediatas que se tem do Canadá são as de um país frio, com um vasto território gélido e inexplorado comercialmente, até por conta da real impossibilidade da agricultura comercial ter sucesso em temperaturas tão baixas. Mas mesmo essa característica tem sua importância no posicionamento dos vinhos canadenses no mercado, como veremos a seguir.
Ainda que a história do vinho no Canadá venha já desde os séculos XVII e XVIII, a moderna indústria do vinho tem seu início nos anos 1970 e passa a realmente crescer e organizar-se na década seguinte, após a assinatura dos primeiros acordos de livre comércio com os EUA. De lá para cá, ainda que com volumes de produção pequenos, o Canadá vem encontrando seu espaço, posicionando-se como um produtor de vinhos de clima frio, com grande sucesso com castas como a Pinot Noir a Riesling e a Chardonnay, além de ter como seu produto emblemático os vinhos doces feitos com uvas congeladas, os Icewines. Essa especialidade, comum na Alemanha e em outros países do Leste Europeu, encontra aqui condições ideais para sua produção com qualidade e constância, em função dos sempre rigorosos invernos do país, onde as temperaturas exigidas por lei para que as uvas congelem totalmente nos vinhedos, -8°C, são atingidas com relativa facilidade.
A uva mais utilizada na produção dos Icewines canadenses é a Vidal Blanc, hibrida, resistente ao frio e de maturação mais rápida, porém os melhores exemplares só aqueles produzidos a partir da Riesling. Também há cultivos expressivos de variedades hibridas para a produção de vinhos secos de mesa, inclusive com uma DO, Tidal Bay, em Nova Scotia, que deve ter seus vinhos brancos compostos majoritariamente de hibridas, sendo L’Acadie a principal delas.
São duas as províncias que produzem a imensa maioria dos vinhos, nas duas “pontas” do país; Ontario no Leste e British Columbia no Oeste.
A produção em British Columbia vem crescendo de forma consistente, com um aumento expressivo do número de vinícolas ali instaladas. As principais zonas de produção são o Okanagan Valley e o Simikameen Valley, cerca de 250km à Leste de Vancouver; aqui as chuvas que vem do Pacífico são bloqueadas por uma cadeia montanhosa e, no caso de Okanagan o profundo lago que da nome a zona ajuda na regulagem das temperaturas, permitindo uma melhor maturação, em alguns casos mesmo de uvas bordalesas, especialmente no sul da região, mais quente.
A principal região produtora do país, tanto em volume quanto em reconhecimento, ainda é Ontário, com mais de 80% dos seus vinhedos localizados na península do Niágara, de onde saem muitas dos mais reconhecidos rótulos nacionais. Há outras zonas de produção em Ontário, em Pelee Island, Lake Eire North Shore e Prince Edward County, mas é em Niágara que efetivamente a mágica acontece.
Os solos são formados por depósitos glaciais, do final da última Era do Gelo, com boa presença de calcário. A variedade de solos e estilos, bem como a prominência comercial da zona, levaram a sua subdivisão mais detalhada, com 12 sub apelações, algumas delas já reconhecidas pela qualidade de seus vinhos, como Beamsville Bench e Niagara Escarpment. Aqui, a grande massa de água do lago Ontario serve par mitigar os efeitos das frias massas de ar que vem do Ártico, enquanto que a diferença de temperaturas entre este e o lago Erie, mais ao Sul, fazem que sempre tenhamos ventos circulando, o que aumenta a proteção contra geadas e doenças fúngicas.
Chardonnay, Pinot Noir, Riesling e Gamay brilham aqui, mas mesmo castas como a Syrah tem dado bons resultados, além de varietais menos comuns internacionalmente, como Gewürztraminer e Pinot Gris. A província vizinha, de colonização francesa, o Québec, tem também sua viticultura, com cerca de 100 pequenas vinícolas, mas sem grandes volumes de produção.
O única selo “nacional” de qualidade, indicando eu a regulamentação e controles sobre a produção, é o VQA, Vintners Quality Alliance, que exige 100% de uvas canadenses nos vinhos, mas tem seus pormenores regulamentados de forma compartimentada, por cada uma das províncias.
Ainda no campo das bebidas, outros produtos nacionais canadenses também devem receber atenção do Escanção, sobretudo por sua qualidade, a saber, os whiskies, feitos em estilo macio e suave, além das cidras, amplamente produzidas e com elevada qualidade. Aliás, o grande sucesso do Icewine serviu de inspiração para a criação de um produto similar, a Ice Cider, produzida de forma semelhante, mas com maçãs congeladas, algo só possível no rigoroso inverno canadense, uma vez que ao contrário das uvas, que congelam já a partir dos -6°C, maçãs só vão congelar a partir de -25°C. Mas o esforço na produção compensa, com produtos deliciosamente doces e aromáticos, concentrados e equilibrados por brilhante acidez.


sexta-feira, 22 de maio de 2020

Tokaj - Revista Escanção


Hungria e os Vinhos de Tokaj
Neste espaço que já há muitas edições temos falado sobre países e regiões produtoras do Novo Mundo, voltamos agora à Europa; uma Europa de tradições seculares mas que permaneceu em segundo plano ao longo do séc. XX, voltando a receber a devida atenção e destaque após a queda do Muro de Berlim.
O centro de nossa conversa hoje é a tradicional região de Tokaj-Hegyalja, renomada pelos vinhos doces Tokaji ali produzidos, os mais antigos vinhos feitos a partir de uvas atingidas pela podridão nobre, pré-datando em um século os exemplares similares do Reno.
Porém, antes cabe um, importante, parêntese. A Hungria vai muito além do Tokaji! É um país produtor que merece toda nossa atenção, pela sua história, variedade e qualidade dos vinhos ali produzidos. A Hungria tem um sistema de DOCs, alinhado com a legislação da União Europeia, designado OEM, Oltalom alatt álló Eredt Megjelöléssel, com regiões demarcadas por todo o país, fazendo bom uso não apenas de castas internacionais ali bem aclimatadas, mas sobretudo de sua rica coleção de castas locais, como as tintas Kékfrankos e Kadarka ou as brancas Ezerjó e Leányka. Das muitas regiões demarcadas, cabe destacar como zonas de especial interesse Villány, no sul do país e de grande renome internacional, Sopron, praticamente uma continuação da região austríaca de Burgenland, e Eger, à meio caminho entre Budapeste e Tokaj, onde produz-se o tinto Bikavér (sangue de touro), com lendas de sua origem remontando ao séc. XVI.
Mas, ainda que a qualidade destes vinhos e de tantos outros seja superior, é inegável que o mais conhecido de todos os vinhos húngaros é, de fato, o Tokaji. Aqui já cabe a primeira distinção; Tokaj Wine Region é como eles se referem a região produtora, que fica dentro da região de Tokaj-Hegyalja, sendo a vila de Tokaj sua principal cidade, enquanto o vinho ali produzido é o Tokaji, com registros de sua produção desde o séc. XVII, com a primeira demarcação da região de produção feita em 1703, antecedendo ao Porto em mais de 50 anos, porém sem uma regulamentação das normas de produção, ponto no qual o pioneirismo cabe a Portugal.
Tokaj fica no Nordeste da Hungria, na fronteira com a Eslováquia, aliás, parte da região originalmente demarcada está em território eslovaco, sendo permitida também a produção de vinho Tokaji naquele país. As encostas dos montes Zemplén definem a geografia local, bem como tem crucial importância na composição dos solos, estes de origem vulcânica, de diferentes eras geológicas, conferindo variedade aos vinhedos locais. O Monte Kopasz, ao norte da vila de Tokaj, marca o relevo da região, com os vinhedos localizados principalmente em suas encostas, em um formato de V, com orientações sudeste-sul-sudoeste.
Além destes aspectos, outro ponto fundamental para a produção destes vinhos são os dois cursos d’água, o Bodrog (mais importante) e o Tisza, que convergem no sul da montanha. Daqui nascem as névoas matinais que recobrem os vinhedos no princípio do outono, fornecendo a umidade necessária ao desenvolvimento da botrytis. A principal uva da região é a Furmint, cerca de 70% dos vinhedos, valorizada por sua marcante acidez, além da casca fina, que a torna altamente suscetível a podridão nobre. Esta é complementada pela Hárslevelű e, em pequena quantidade, pela Moscatel, aqui chamada Sárgamuskotály, além de volumes muito pequenos das variedades locais Zeta, Kabar eKövérszőlő.
Sua rica história, com vinhos apreciados e procurados nas cortes europeias dos séculos XVIII e XIX, Tokaji foi um dos poucos, senão o único, vinho do Leste Europeu que manteve algum interesse demanda nos mercados ocidentais mesmo durante o período de influência soviética, porem não sem algum prejuízo, pois não havia então o mesmo cuidado e primor técnico destinado hoje a estes vinhos, sendo valorizado o volume em detrimento da qualidade (que foi bem baixa neste período), com vinhos produzidos em um estilo bem mais oxidativo e até mesmo fortificado, algo que jamais foi permitido mas, diz-se, era praticado em tempos de comunismo. A virada qualitativa vem a partir de 1989, quando a Hungria abre-se para investimentos externos e, devido a sua fama, Tokaj é a primeira região a atrair interesse, com a Royal Tokaj, à qual seguiram-se muitas outras que foram renovadas e/ou modernizadas, fosse com capital estrangeiro ou local, entre as quais podemos citar a Oremus (do grupo Vega Sicilia), Disznókő, do grupo francês AXA, e o produtor local István Szepsy.
Ainda que os vinhos doces sejam os mais famosos, vinhos secos também são produzidos aqui, aliás com enorme importância para a economia da região. Estes entram na categoria Szamorodni száraz, vinhos que tradicionalmente eram obtidos com cachos colhidos inteiros, sem distinção entre uvas saudáveis e botrytizadas, produzindo um mosto fermentado até o final, deixando muito pouco ou nenhum açúcar residual. Mas a grande estrela local são, de fato, os vinhos doces. Antes da safra 2013, utilizava-se uma classificação algo mais detalhada, com vinhos doces Late Harvest, nos quais a botrytis, ainda que usual, não era obrigatória, e com os vinhos doces Aszú, estes necessariamente com botrytis, sendo seu nível de doçura medido em puttonyos, de 3 a 6. Um puttonyo é um tradicional balde de madeira, que comporta entre 20 e 25kg de uvas Aszú, que seria adicionado a um gönci, barrica de 136/137 litros completada com vinho base seco, logo, quanto mais puttonyos, mais doce o vinho.
A partir de 2013 essa classificação deixou de ser utilizada, com o objetivo de simplificar a compreensão por parte do consumidor. Hoje temos os Tokaji Late Harvest e os Tokaji Aszú, sendo estes últimos obrigatoriamente botrytizados e com um açúcar residual mínimo equivalente ao que antes era um Tokaji 5 puttonyos. Mais simples e direto, não?
No topo, entre os mais raros e inebriantes vinhos doces do mundo, encontraremos o especialíssimo Tokaji Eszencia. Este é produzido unicamente com o mosto flor de uvas botrytizadas, com níveis elevadíssimos de doçura e acidez, o que faz que sua fermentação possa levar anos para chegar, quando muito, em um teor alcoólico por volta dos 5°. São vinhos que precisam ter um mínimo de 450g/l de açúcar residual, embora exemplares na casa dos 800g/l não sejam incomuns; vinhos para beber em pequenos goles, impressionando permanentemente a memória.
O caráter da botrytis é marcado nos vinhos de Tokaji como nos de Sauternes, mas estes têm, em geral maior acidez do que os franceses, o que os torna menos enjoativos e mais gastronômicos. Essa característica é partilhada com os Trockenbeerenauslese alemães, com a vantagem de que a produção de Tokaji e mais estável, permitindo que estes tenham preços mais acessíveis que aqueles. Por isso, Tokaji ocupa uma posição privilegiada entre os principais clássicos obtidos a partir da podridão nobre, merecendo integrar sempre a seleção do escanção moderno.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Uruguai - Revista Escanção


Uruguai, Pequeno Gigante         
O Uruguai não é, nem de longe, nosso primeiro pensamento quando se trata de importantes nações vitivinícolas. Especialmente a partir de uma visão da Europa continental, onde raras serão as oportunidades de contato com os produtos deste país.
Falamos aqui de um país de pequenas dimensões, mesmo para os padrões europeus, com uma população de 3,4 milhões de pessoas e 12,3 milhões de cabeças de gado! Isso mesmo, 4 cabeças de gado para cada habitante. A pecuária é indubitavelmente a grande vocação nacional, com a produção de algumas das melhores carnes do mundo, mas os vinhos vêm a cada dia ganhando mais espaço nas melhores adegas e mesas mundo afora.
A área total de vinhedos é ainda modesta, com cerca de 7.000ha, menos do que algumas vinícolas individuais dos vizinhos Chile e Argentina, fornecendo uvas para cerca de 200 vinícolas. Com a posse da terra nas mãos de mais de 1750 pequenos proprietários, a média das propriedades é de cerca de 5ha.
A história do vinho no Uruguai é relativamente recente, mesmo quando comparado com outros países do Novo Mundo, que iniciam sua caminhada nos séculos XVI e XVII; a produção em maior quantidade só tem início na década de 1870, período em que uma leva de imigrantes italianos e bascos abraçam a vitivinicultura como atividade econômica. É justamente nesta década que o basco Pascal Harriague, originário do sudoeste francês, introduzo no país a casta Tannat, que saída do Madiran, tornou-se hoje a casta emblemática em terras cisplatinas, em função de sua perfeita adaptação ao clima e solos locais. Aliás, Harriague é um sinônimo local da Tannat.
O clima do país é muito diferente dos outros grandes produtores sul-americanos, Argentina e Chile, que tem climas muito mais secos, marcados também pela altitude e pela proximidade de suas zonas produtoras com a Cordilheira dos Andes.
Aqui temos uma forte influência do Oceano Atlântico, gerando condições mesoclimáticas usualmente comparadas àquelas de Bordeaux, ainda que os índices pluviométricos e as temperaturas sejam maiores. Com metade da população concentrada na capital, Montevidéu, as margens do rio de la Plata, no sul do país, as plantações acabam também concentradas no sul, especialmente nos departamentos de Canelones, San José e Colonia, onde predominam os solos argilo calcáreos profundos, porém novas áreas de produção vem sendo mais e mais exploradas, nos solos graníticos dos arredores de Punta del Este, ou nos solos pobres e secos de Cerro Chapeu, na fronteira com o Brasil ao Norte.
Hoje, 16 dos 19 departamentos que compõem o Uruguai tem produção de vinhos, com uma atenção cada vez maior das vinícolas as sutilezas e distinções entre os seus diversos terroirs.
Ainda que o grande símbolo dos vinhos uruguaios seja a Tannat (49% de todos os tintos), encontramos aqui uma indústria dinâmica e inovadora, com variedades tão distintas como a Alvarinho, Marselan ou a Zinfandel ao lado de outras clássicas, como Chardonnay, Merlot, Sauvignon Blanc, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, produzindo vinhos com boa tipicidade, sempre marcados pelo excelente equilíbrio entre os níveis de álcool e acidez, proporcionado pelo clima ameno e pelas marcadas amplitudes térmicas durante a maturação das uvas. Novos vinhedos e novas castas são plantadas a cada dia, o que só busca ampliar a oferta de vinhos deliciosos e inovadores.
Os principais mercados dos vinhos uruguaios são o Brasil e os Estados Unidos, o que evidentemente diminui a oferta destes vinhos na Europa, mas são vinhos de caráter e qualidade, que devem ser mais bem compreendidos e saboreados, como expoentes da produção do Novo Mundo que são.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Tasmânia - Revista Escanção


Neste mês, optamos por abordar um dos grandes produtores mundiais, a saber, a Austrália. Dos mais destacados produtores do Novo Mundo, A Austrália tem uma posição de destaque nos principais mercados globais e o conhecimento de seus principais vinhos e regiões são fundamentais na formação do escanção moderno.
Justamente por conta desta importância e, mais ainda, justamente por conta da grande variedade de vinhos e terroirs que encontramos naquele país, é que optamos por um caminho menos convencional, abordando uma das menores regiões produtores, porém de elevado potencial qualitativo, ao ponto de suas uvas gozarem de alta demanda no mercado local. Falaremos hoje da Tasmânia.
A Tasmânia é uma ilha, logo ao sul da Austrália, e um dos estados que compõem aquele país. Sua história vitivinícola começa no século XIX, mas apenas nas últimas décadas a produção local alcançou destaque. Em um país com clima predominantemente quente, os vinhedos da Tasmânia, alguns deles tão ao Sul quanto os da ilha Sul da Nova Zelândia, constituem-se na amis promissora zona de produção de clima frio. Com a tradição e legislação australianas, que permitem a elaboração de blends inter-regionais, já de muito tempo grandes nomes da viticultura australiana, como Hardy’s, Yalumba, Penfold’s, entre outros, recorrem aos vinhedos da ilha em busca de nervo e frescor para seus bons brancos e espumantes, levando uvas, mosto e vinhos base dali para vinificação em suas unidades centrais.
Mesmo com o crescente interesse que os vinhos dali despertam, a área total plantada esta apenas por volta dos 2.000ha, número pequeno para os padrões australianos, em uma região que representa não mais que uma pequena fração da produção nacional. A paisagem local é marcada pelas formações montanhosas locais, nas encostas das quais ficam as principais áreas de produção, em solos de arenito rochosos, solos sedimentares de origem aluvial e coluvial, além de solos vulcânicos. O clima é predominantemente fresco, regulado pelos ventos que vem do Sul, contando com a proteção das montanhas para que as temperaturas não caiam em demasia. Algumas zonas amis próximas ao mar precisam mesmo contar com redes e telas de proteção contra ventos mais intensos. Esse clima mais fresco, com importante suscetibilidade à granizo e geadas, faz com que a Tasmânia tenha uma variação de safra para safra importante, compatível com regiões clássicas do Velho Mundo.
A grande estrela da produção local são os espumantes, produzidos em grande parte pelo método clássico e reconhecidos entre os melhores da Austrália, representando cerca de 35% da produção local. Isso reflete também nas castas ali plantadas, ocupando a primeira posição a Pinot Noir, com 41% dos vinhedos (e 45% utilizados na produção de espumantes), seguida da Chardonnay, com 18% da área plantada, sendo 76% desta produção destinada a espumantes. Estas são complementadas por Sauvignon Blanc, Pinot Gris, Riesling, entre outras.
A alta qualidade é foco, o que pode ser verificado pelo valor médio das garrafas exportadas. 100% da produção está acima dos 15AUS$, contra apenas 7% da produção do país como um todo. Esse mesmo reconhecimento existe em relação a qualidade das uvas ali plantadas, que alcançam um preço médio de quase 3.000 AUS$ por tonelada, contra uma média nacional de pouco mais de 600 AUS$.
Dentro o sistema de classificação regional australianos, as zonas de produção são chamadas de GIs, Geographical Indications. Essa indicação não traz consigo nenhuma especificidade maior do que o reconhecimento que os vinhos vêm de uma área geográfica específica, sendo que muitas destas GIs sequer tem aspectos muito distintivos em seu terroir. Esse explicação vem pelo fato de que, até o momento, a Tasmânia não tem GIs oficialmente reconhecidas, sendo seus vinhos rotulados apenas com a indicação “Tasmânia”; no entanto, conta a ilha com 7 subzonas de produção, 3 delas no Norte e 4 no Sul.
Temos no Norte a principal delas, Tamar Valley (31% da produção) e ainda Piper River (17% da produção) e North West (2% da produção). No Sul, encontramos as zonas de Coal River Valley (22% da produção), East Coast (20% da produção), Derwent Valley (7% da produção) e a pequena zona de Huon Valley, com o d’Entrecasteaux Channel (1% da produção). Embora entre o Sul da ilha e a Antártida não haja nenhuma barreira, os vinhedos são ligeiramente amis quentes que os do Norte, sobretudo por conta da localização dos mesmos, aninhados entre as montanhas que os protegem do frio.
Como já mencionamos no início deste artigo, é fundamental ao escanção moderno uma adequada compreensão dos vinhos australianos. Porém dentro deste contexto e ainda extrapolando para uma visão meramente hedonista, é nossa recomendação que os vinhos da Tasmânia ocupem uma posição especial nesse processo de aprendizado.


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Argentina - Revista Escanção


O mais importante produtor da América Latina, além de um dos mais dinâmicos países produtores nas últimas décadas, a Argentina nem sempre recebe a devida atenção na análise e compreensão de seus vinhos. Uma indústria por muito tempo focada no volume, além de exportações com grande foco em poucas uvas (especialmente a Malbec) e limitada divulgação do variado terroir local são pontos que precisam sem vencidos na melhor divulgação e entendimento dos vinhos argentinos.

Afinal, falamos de um país de grandes dimensões territoriais, o 8º maior do mundo, assim como um dos maiores produtores globais, com um total de mais de 200.000ha de vinhedos e uma cultura vitivinícola profundamente arraigada, ainda que o consumo per capita tenha caído de quase 100 litros para cerca de 26 litros, ao longo dos últimos 50 anos.

Como é o caso com tantas nações que foram colônias espanholas, a história da viticultura argentina começa no séc. XVI, com o trabalho de missionários e colonos; estes plantavam para seu consumo, enquanto aqueles levavam a viticultura à novas terras, sempre levando consigo videiras para a implantação de novos vinhedos, com o objetivo de produzir vinho para a Eucaristia.

Ainda que vinhedos tenham sido cultivados nestes primeiros anos próximos à costa Atlântica, às margens do rio De La Plata, desde muito cedo os melhores resultados foram os obtidos nos vinhedos aos pés dos Andes, estes iniciados por expedições vindas do Chile e do Peru e é aqui que a indústria do país se estabeleceu.

A viticultura do país está dividida em 4 macrorregiões, que encontramos no mapa, à saber:

                - Norte: com as províncias de Jujuy, Salta, Catamarca e Tucumán

                - Cuyo: com as províncias de La Rioja, San Juan e Mendoza

                - Patagônia: com as províncias de La Pampa, Neuquén, Rio Negro e Chubut

                - Atlântica: com a província de Buenos Aires

As três primeiras, que compreendes justamente os vinhedos mais próximos aos Andes e distantes do oceano, respondem por 99% da produção. O grande esforço argentino vem concentrado na busca incessante por melhor entender e compreender os distintos terroirs do país, com a demarcação cada vez mais precisa de regiões e sub-regiões, levando em conta aspectos orográficos, muito mais do que fronteiras políticas. A expansão dos vinhedos, buscando as altitudes do Norte, as baixas temperaturas do Sul e as brisas marítimas do Leste mudaram o mapa do vinho argentino, ainda que 95% da produção permaneça na região de Cuyo.

Particularmente a província de Mendoza, com seus mais de 150.000ha de vinhedos, 75% do total nacional, ainda que conte com diversas razões históricas que justificam seu papel como coração da vitivinicultura do país, tem inegável vocação à produção de vinhos de alta qualidade, com clima e solo privilegiados, além do trabalho desempenhado por toda uma nova geração de enólogos e produtores, experimentando novas técnicas, novas castas, novas áreas de produção e muito mais.

Mendoza é dividida em cinco grandes sub-regiões, com suas características particulares: Valle de Uco, integrado pelos departamentos de Tunuyán, Tupungato e San Carlos; a Primera Zona, que compreende os departamentos de Luján de Cuyo e Maipú; e os oásis Norte (Lavalle e Las Heras), Leste (San Martín, Rivadavia, Junín, Santa Rosa e La Paz) e Sul (San Rafael, Malargüe e General Alvear).

Oásis Norte e Leste: Baixas altitudes, áreas de clima mais quente e foco em vinhos de entrada, de custo mais baixo, ainda que exemplares de grande qualidade sejam produzidos também, sobretudo com as castas Tempranillo e Bonarda

Primera Zona: Mais tradicional zona de alta qualidade de Mendoza, onde brilha a onipresente Malbec, logo ao sul da cidade, formada pelos departamentos de;

-          Luján de Cuyo: No alto vale de Mendoza, com altitudes de 800 a 1.100 metros e chuvas na casa de 190mm/ano Aqui foi estabelecida e primeira DOC da Argentina, em 1993 e é onde a maioria das mais tradicionais e renomadas bodegas estão sediadas, ainda que a maioria absoluta destas tenham também vinhedos em outras partes de Mendoza. Os principais distritos aqui são Las Compuertas, Vistalba (os dois de maior altitude), Agrelo, Perdriel, Ugarteche, Chacras de Coria e Mayor Drummond.

-          Maipú: Logo ao leste de Luján e também ao sul da cidade, é ligeiramente mais quente, devido a menor altitude. Contém os distritos de Cruz de Piedra, Barrancas, Russell, Coquimbito, Lunlunta, Fray Luis Beltrán e Maipú (assim como em Luján, temos um departamento e um distrito com o mesmo nome).

Oásis Sul: com os departamentos de San Rafael, Malargüe e General Alvear, é a zona mais ao Sul de Mendoza, onde as baixas altitudes são compensadas pela maior latitude, temperando o clima desta área focada em castas clássicas. Esta zona não goza de tão alta fama talvez devido a alta incidência de granizo ou a sua maior distância da cidade, mas produz vinhos de elevada qualidade.

Valle de Uco: A estrela em ascensão da Argentina, a região do país mais em voga no momento, composta pelos departamentos de Tupungato (com os distritos El Peral, Anchoris, La Arboleda, Tupungato e Gualtallary), Tunuyán (Vista Flores, Los Árboles, Los Sauces, Los Chacayes) e San Carlos (Altamira, La Consulta, Eugenio Bustos, El Cepillo), com altitudes de 1.000 a 1.600 metros. Seu clima mais frio, os solos muito pobres e de excelente drenagem, além das brisas que sopram constantemente são responsáveis pela alta sanidade das videiras, que entregam baixos rendimentos e vinhos encorpados, de alta acidez. Malbec, Chardonnay e Cabernet Franc são castas que tem se destacado.

Os modernos vinhos argentinos podem, e devem, fazer parte do repertório do bom escanção!


Chile - Revista Escanção


Chile, Estreito e Amplo

Inicialmente, pedimos licença aos leitores para retomar, parcialmente, um tema do qual já tratamos não há muito tempo, o Chile.

Porém, queremos hoje abordar novos pontos, justo aqueles de maior relevância na atual conjuntura da produção de vinhos naquele país. Vamos analisar um pouco a divisão regional do Chile e como esta tem recentemente evoluído para dar cada vez mais atenção ao terroir e os diversos aspectos que compõem este conceito.

Sendo o Chile um país estreito, com menos de 200km de Leste a Oeste em qualquer ponto, a partir da abertura do mercado às exportações, principalmente nos anos 90, as primeiras iniciativas na demarcação de regiões produtoras deram-se de Norte a Sul. Os, então, pouco mais de 1.000km de zona de produção, denominados Valle Central, foram subdivididos em grandes vales, que consideravam, em geral, os grandes rios de degelo, formados pelas águas que desciam da Cordilheira dos Andes rumo ao Pacífico. Daí vem os grandes vales, nomes que por muito tempos nos habituamos a encontras nas etiquetas chilenas, Maipo, Rapel (este subdividido em Cachapoal e Colchagua), Curicó e Maule.

Mas ainda neste período, começa a despontar uma nova percepção. Com um foco maior em qualidade, em detrimento do volume e do baixo custo, as plantações começam a afastar-se da planície central, de solo fértil aluvial, e começam a buscar as encostas dos Andes por um lado e a proximidade com o oceano pelo outro. É já neste momento que desponta a primeira região produtora em clima mais fresco, o Valle de Casablanca, aberto às influências costeiras, que passam então a ser levadas mais em conta pelos produtores locais.

Percebe-se, de forma particularmente intensa na década que se segue, que nas poucas dezenas de quilômetros entre o oceano e as montanhas encontram-se muitas e importantes variações em solo e microclimas, muito mais intensas e marcadas do que aquelas que se verificam em milhares de quilômetros de Norte a Sul, sendo as principais diferenças em relação as distintas influências climáticas e ao solo.

No aspecto geológico, o Chile é caracterizado, de Leste para Oeste, pelo relevo que vemos representado na figura 1. Próximo ao mar, após as planícies costeiras, temos uma cadeia montanhosa, de poucas centenas de metros, que é a Cordilheira da Costa, composta fundamentalmente por granitos, tendo-se formado entre 150 e 200 milhões de anos atrás. Estes solos são propícios a castas como a Sauvignon Blanc, a Chardonnay, a Pinot Noir e a Syrah. As montanhas protegem o interior dos frios ventos do Pacífico, de águas geladas pela corrente antártica de Humboldt, que banha todo o litoral, mas essa proteção não é absoluta, de forma que vinhedos em suas encostas recebem ainda algo destes ventos frescos.

À Leste, na fronteira com a Argentina, está a imponente Cordilheira dos Andes, com seus quase 7.000m de altitude no ponto mais alto e a eterna presença de neve em seus picos, dos quais vem as frescas brisas noturnas que refrescam os vinhedos mais abaixo. Aqui temos uma formação geológica mais jovem, de cerca de 80 milhões de anos, de origem vulcânica, composta fundamentalmente de basalto.

Ao centro, na planície central, temos solos de origem aluvial e coluvial, com distintos níveis de fertilidade, que permitem desde a produção de grandes volumes de vinhos simples e correto até a produção de alguns dos mais destacados vinhos do país.

Todas essas sutis diferenças, de solos, climas, altitude, humidade, influência dos ventos, do mar, insolação etc. levaram não a uma mudança, mas a uma evolução da demarcação normalmente utilizada. Além dos vales já demarcados, e das subzonas dentro deles, estas foram agrupadas em novas classificações, que levam em conta essas variações de Leste a Oeste. Os vinhedos mais próximos ao Pacífico, influenciados pelos frios ventos marinhos, podem acrescentar à sua identificação regional mais específica a indicação “Costa”; àqueles próximas da Cordilheira, adiciona-se a indicação “Andes” enquanto os vinhedos na área intermediária são designados “Entre Cordilleras”.

É fundamental destacar que tais diferenças são marcadas, não apenas comerciais. Em recente visita ao país pudemos fazer uma exploração detalhada que incluiu centenas de quilômetros rodados, mais de uma centena de vinhos degustados e horas e horas de explanações de enólogos e agrônomos, que nos apresentaram nos menores detalhes essa nova classificação.

O mapa mostra as áreas de cada designação, dentro de cada um dos vales tradicionalmente demarcados de Norte a Sul. O objetivo desta divisão é cada vez mais destacar as diferenças entre cada área, permitindo ao consumidor, no médio prazo, uma identificação clara de estilos a partir das áreas de origem dos vinhos. Como os tradicionais países produtores do Velho Mundo, o Chile tem também uma rica diversidade de terroirs. Cabe aos escanção moderno sua melhor compreensão bem como a busca pelo maior conhecimento para melhor comunicar ao cliente estas diferenças. Aliás, todo o detalhamento das subzonas de produção chilenas pode ser encontrado no sítio da Wines of Chile na internet.

Nova Zelândia - Revista Escanção


Nova Zelândia – Vinhos dos Confins da Terra

A Nova Zelândia produz vinhos de estilo ímpar e qualidade destacada, apesar de sua relativamente curta história vitivinícola.

Falamos de um país que teve seus primeiros vinhedos implantados logo após a fundação do país, no início do séc. XIX, e seu primeiro vinho produzido anos depois, pelo missionário James Busby, entusiasta e pai da vitivinicultura kiwi.

Por muito tempo o foco foi em vinhos simples, muitas vezes recorrendo a variedades híbridas, visando atender fundamentalmente o mercado de consumo local. A onda da mudança começa nos anos 1970, quando Malborough começa a destacar-se pela sua produção de vinhos premium baseados na casta Sauvignon Blanc.

Falamos aqui de um país de pequenas dimensões. Ainda que falemos de 1.600km de Norte a Sul, quase o triplo de Portugal, são menos de 5 milhões de habitantes espalhados por esse território, que respondem por menos de 1% da produção vitivinícola global.

Muitos são os fatores que contribuem para tal destaque. Trata-se de uma nação que, justamente por seu isolamento geográfico e pequena população, foca sobretudo em vinhos de alta qualidade, afinal, não são baixos os custos de produção quando tem-se escassez de mão de obra.

Porém fatores geográficos também favorecem a produção de vinhos de elevada qualidade. Embora tenhamos climas que vão do subtropical no norte até o fresco clima montanhoso do sul, onde estão os vinhedos mais meridionais em todo o mundo, um fator comum à todas as zonas produtoras é o natural frescor de seus vinhos, proporcionado pela proximidade do oceano, nunca a mais do que 130km de distância de qualquer ponto do país.

Dividida entre duas grandes ilhas, Norte e Sul, com produção em toda sua extensão territorial praticamente, a Nova Zelândia tem mais de 60% de seus vinhedos na região de Malborough, no Norte da ilha Sul, seguida de Hawkes Bay, na ilha Norte, e Central Otago, no extremo Sul. A casta mais cultivada, grande símbolo nacional, é a Sauvignon Blanc, com mais de 21.000 ha plantados, mais de 50% da área total, seguida da tinta Pinot Noir e da Chardonnay.

Outro fator de importante destaque aqui é a constante preocupação com a questão ambiental; 98% dos vinhedos são certificados como sustentáveis e o país caminha a passos largos para atingir a ousada meta de contar com 20% de seus vinhedos certificados como orgânicos até o ano que vem, característica muito valorizada hoje em dia por consumidores e profissionais. Temos ainda uma preocupação a atenção constantes com a inovação, sempre introduzindo as mais modernas técnicas e equipamentos na vitivinicultura, usualmente na vanguarda deste setor, mesmo nas embalagens, campo no qual podemos destacar a importância do screwcap, presente como vedação de mais de 90% dos vinhos.

O típico Sauvignon Blanc neozelandês é um branco fresco, de acidez vibrante, marcados aromas citrinos e à frutos tropicais, além de evidentes notas vegetais, tão ligadas à casta, evocando espargos e relva recém cortada. Com médio corpo e boa persistência, oferecem excelente alternativa para harmonização com frutos do mar e peixes brancos, ou ainda acepipes como os pastéis e pataniscas de bacalhau.

Já os Pinots da ilha, especialmente os de Central Otago, são tintos expressivos e frutados, com marcado frescor e a típica sedosidade de seus taninos, sempre interessantes em harmonizações com carnes suínas, aves como codornas, peru e pato, ou ainda com massas e risotos com cogumelos.

Por certo, uma nação que merece maior atenção de sommeliers mundo afora!

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