quarta-feira, 12 de maio de 2021

Croácia - Escanção

 

O sempre crescente interesse do consumidor por novos vinhos, novas castas, novas origens e mais, já há muito tem sido o motor da expansão das fronteiras do mundo do vinho. Especialmente nos últimos 30 ou 40 anos vimos a emergência de novos e mais bem informados bebedores, interessados em melhor conhecer a origem e história daquilo que têm no copo.

Assim, de forma natural, o storytelling de um vinho passou a ser algo cada vez mais importante para a construção das marcas, o que acabou por dar espaço a categorias antes virtualmente inexistentes, do ponto de vista comercial, como os vinhos naturais, biodinâmicos e veganos, ou ainda vinhos de países antes pouco presentes nas prateleiras ocidentais.

Nesta última categoria, vêm marcar seu espaço os vinhos do Leste Europeu, de países que até o início dos anos 1990 estavam do lado de lá da Cortina de Ferro, com governos comunistas ditatoriais sob influência direta da então União Soviética. Dentro da lógica de controle centralizado do governo Soviético, não tão diferente do que ocorreu em Portugal durante os anos de Salazar, a produção da maioria destes países foi reorganizada, em sistema de cooperativas, com foco no volume em detrimento da qualidade.

Desta forma, foi apenas a partir da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS é que a produção destes países voltou a se organizar, na medida em que estas nações passaram a ter maior acesso aos mercados internacionais, conquistando consumidores, em um primeiro momento, pelo exotismo de seus vinhos, feitos com castas autóctones desconhecidas, ou em regiões obscuras, ou ambos.

Posição privilegiada na conquista destes novos consumidores acabou sendo ocupada pelo Croácia, parte da antiga Iugoslávia, fundamentalmente por uma série de laços de sua história vitivinícola com a Itália, logo do outra lado do Mar Adriático; a costa croata foi parte do território Veneziano no passado e o interior do país é tradicional fornecedor de carvalho para os botti tão utilizados na produção de vinhos do país da bota.

Hoje a Croácia é um destino turístico dos mais disputados, com belezas naturais estonteantes e uma coleção de cidadezinhas pitorescas. Neste cenário, o vinho do país também conquista mais adeptos a cada dia. Podemos grosseiramente dividir o território nacional em dois; as áreas costeiras, à oestes dos Alpes Dináricos, e a Croácia continental, com produção de vinhos em zonas mais ao Nordeste. Oficialmente, desde 2018 temos 4 regiões produtoras, duas no interior (Bregovita Hrvatska e Slavoniji i Podunavlje) e duas no litoral (Istra i Kvarner e Dalmacija).

No interior temos já um importante laço com o restante do mundo do vinho, já mencionado. Vem da Eslavônia o carvalho tão valorizado na produção de barricas, especialmente tonéis e pipas. Aliás, não é incomum a tradução equivocada de muitas publicações e sites para o português, que trocas Eslavônia por Eslovênia, fato ao qual há de se estar sempre atento; recipientes de carvalho são feitos com madeira da Eslavônia. A produção de vinhos aqui no interior está concentrada em áreas mais próximas às fronteiras com Hungria e Eslovênia, não sendo a região de maior destaque, ainda que produza vinhos interessantes a partir de castas internacionais e locais. Talvez o maior destaque aqui seja a casta branca Graševina, mais conhecida como Welschriesling ou Riesling Itálico, apesar de não ter qualquer parentesco com a Riesling. O destaque é mais pela ampla difusão dessa casta por outros países da região, bem como pelo Brasil, e por tratar-se da casta mais cultivada em todo o país.

No mais, os vinhos do interior reúnem uma ampla coleção de castas locais e internacionais, em uma variedade de estilos, em geral com maior foco nos exemplares de boa relação custo/benefício.

Já nas zonas costeiras é que encontraremos a regiões de maior destaque, bem como as castas mais reconhecidas internacionalmente, as castas locais, que fique claro. Nessa parte do país encontraremos com maior frequência uvas autóctones que são inclusive reconhecidas fora das fronteiras croatas. Entre estas a mais popular é a tinta Crljenak Kaštelanski, também conhecida como Tribidrag.

Certamente você já leu sobre essa casta croata e há uma grande chance que você inclusive já tenha provado vinhos feitos com ela e não se impressione se você não se recorda. O mais provável é que você a conheça por outro nomes. Essa casta de nome quase impronunciável é nada mais nada menos que a Zinfandel californiana, também cultivada na região italiana da Puglia, como Primitivo.

Durante décadas considerada uma casta autóctone californiana, pesquisas da UC Davis determinaram que era geneticamente a mesma Primitivo italiana e mais alguns anos de pesquisa levaram a identificação de sua origem croata. Aqui na Croácia a tinta que recebia maior atenção era a Plavac Mali, que se chegou a suspeitar seria a Zinfandel mas hoje sabe-se ser um cruzamento entre esta e a também autóctone Pošip. Apenas após essa descoberta é que essa tinta, até então relegada ao segundo plano e cultivada em pequenas quantidades no interior do país, voltou a crescer e vem entregando belos exemplares.

Ao longo da costa, da Ístria até o sul da Dalmácia, o litoral recortado e cheio de ilhas entrega uma variedade de solos e microclimas, que combinados com as diferentes tradições locais geram uma miríade de vinhos a serem descobertos, desde brancos frescos e aromáticos, passando por tintos cheios de caráter, até vinhos laranja, de longa maceração pelicular e maturados não em carvalho mas em acácia. Ou seja, vinhos para todos os gostos, ocasiões e gastronomias.

Dos mais interessantes países produtores que vem ganhando destaque globalmente, merecedor da atenção de consumidores e escanções.

domingo, 7 de março de 2021

Jerez - Escanção

 

Não se nega a primazia de Portugal como terra de grandes vinhos generosos. Com o trio formado por Porto, Madeira e Moscatel de Setúbal, de grande fama por todo o Mundo, ainda complementados por generosos raros, especiais e regionais, como o Carcavelos, o Moscatel do Douro ou outros tantos mais.

Ainda que tais vinhos tenham surgido a partir de tradições mais antigas e locais, é a grande sede dos britânicos por esta categoria que dá o grande impulso necessário para que estas e ainda outras denominações de firmem como referência de vinhos generosos de qualidade para o grande público amante do vinho. Em Portugal, as apelações supracitadas foram as que maior influência sofreram, fato facilmente constado pela ainda expressiva penetração destes vinhos no mercado britânico, além das muitas famílias vindas de lá e hoje profundamente envolvidas com o negócio do vinho em Portugal.

Mas entre os grandes vinhos generosos do mundo encontramos um em particular com história e tradições tão ricas quanto os exemplares clássicos lusitanos, produzido há poucas centenas de quilômetros de Portugal, nas cálidas terras andaluzes; são estes os vinhos de Jerez!

A apelação reconhece o nome em diferentes idiomas, Jerez, Xerez ou Sherry. Aqui utilizaremos o nome local, em respeito à região e suas tradições. O Jerez é fruto de uma terra de passagem, onde muitos foram os povos que ao longo da história ali habitaram. As tradições, gastronomia, arquitetura e viticultura locais são, então, fruto direto da influência de Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Muçulmanos, entre outros.

Porém, os vinhos ali produzidos e tão apreciados hoje em dia sofreram uma significativa influência das necessidades do mercado, especialmente o mercado britânico e sua demanda por vinhos fortificados. Este aliás era o estilo local já nos séculos XVII e XVIII, com vinhos jovens e de elevado teor alcoólico, cujo envelhecimento antes da exportação não era permitido. É apenas no início do século XIX que começa a tomar forma a Jerez que conhecemos hoje, quando a chegada de várias famílias de comerciantes estrangeiros e de outras regiões de Espanha levam a mudanças nas normas locais, que por fim levam a produção de vinhos de maior qualidade.

Hoje, ainda que Jerez produza vinhos de grande qualidade em estilo oxidativo, o grande fator distintivo da enologia local são os vinhos de envelhecimento biológico, que maturam e evoluem sob influência da flor, uma camada de leveduras que se formam sobre o vinho, não tão diferente do que acontece com os Vin Jeaune do Jura, na França. Aqui nos solos esbranquiçados ricos em calcário, chamados albarizas, a casta branca Palomino Fino produz vinhos com as condições ideais para que estas leveduras se desenvolvam.

Claro, é necessário o “apoio” do produtor; a fortificação dos vinhos base não pode ultrapassar os 15,5° e as botas, barris onde o vinho envelhece, não podem ser completamente cheias, deixando espaço para a formação da camada de flor. A flor bloqueia a entrada de oxigênio, consome qualquer resquício de açúcar ainda presente, glicerina e produz uma série de substâncias químicas do grupo dos acetaldeídos, conferindo a estes vinhos seus aromas típicos de amêndoas e notas salinas.

O vinho produzido deste forma é o Jerez Fino, podendo também ser denominado Manzanilla caso seu envelhecimento aconteça na cidade de Sanlúcar de Barrameda, mais próxima ao mar, na foz do rio Guadalquivir. Para que tenha as características de delicadeza e frescor que lhe são peculiares, a origem ideal são os solos de albariza que já mencionamos. Essa distinção é importante, pois temos ainda na região solos arenosos e argilosos, as arenas e barros, que entregam vinhos com mais corpo e estrutura, mais adequados para os estilos com maior oxidação e mais álcool, o Oloroso e o Amontillado. Aquele é feito com vinhos base fortificados à 18°, evoluindo desde o início de forma oxidativa, enquanto este inicia sua maturação sob a flor, sendo após alguns anos refortificado para que a flor morra e siga sua maturação de forma oxidativa.

Outra prática distintiva da produção de Jerez é o uso quase que generalizado do sistema de solera, que basicamente consiste em nunca esvaziar as barricas no momento do envase, completando as mesmas com barricas um ano mais jovens, e estas com vinhos de barricas ainda um ano mais jovens e assim sucessivamente, até que se complete as barricas que contêm apenas vinho do ano anterior com o vinho do ano atual. Desta forma, o vinho engarrafado é sempre uma mistura de todas as safras desde o início daquela solera, o que confere maior complexidade ao produto, mas também constância de estilo e qualidade.

Encontramos ainda outros estilos menos conhecidos, de produção limitada, como a Manzanilla Pasada e o Palo Cortado, além dos estilos doces, com a casta Pedro Ximenez, carinhosamente chamada de PX, ou com a Moscatel, bem menos comum. Serão vinhos igualmente instigantes, complexos e apaixonantes.

Jerez é uma região muito rica em história e tradições e além disso produz um dos mais instigantes vinhos, com uma versatilidade ímpar para harmonização rivalizada por pouquíssimas regiões ou estilos. Conhecer a fundo esta região e seus vinhos é um caminho sem volta, seja pelo lado do escanção, que invariavelmente mergulha nos meandros dos muitos estilos e sabores que aqui encontram-se, seja pelo lado do consumidor, que terá uma fonte de muitos sabores, sensações e possibilidades.

 

 

domingo, 24 de janeiro de 2021

Valtellina Escanção

 

Valtelinna e a Sutileza do Nebbiolo Alpino

Muito já se disse, e ainda se diz, da enorme variedade de castas e regiões produtoras que encontramos na Itália. Em uma nação com mais de 300 espécies de uvas autóctones e mais de 400 regiões demarcadas, onde a variedade e a autenticidade são as palavras de ordem, é nada menos que um grande atestado de qualidade que uma casta específica venha a se destacar e ganhar espaço nas adegas mundo afora.

Nesta coleção de muitos nomes e muitas cores, é significativa a posição de grande destaque ocupada por um casta em particular, a Nebbiolo, nobre variedade do Piemonte tida por muitos, inclusive por este escriba, como incontestavelmente a maior entre as castas autóctones italianas, produzindo vinhos de elegância ímpar, potência, sutileza, complexidade e longevidade.

Sendo uma variedade exigente, são poucas as zonas demarcadas que tem a Nebbiolo como sua casta principal e destas as que são consideradas a máxima expressão do varietal são sem dúvida Barolo e Barbaresco, localizadas no Langhe, às margens do rio Tanaro, onde as colinas de orientação sul e o solo argilo-calcario oferecem as condições ideais para a perfeita maturação e pleno desenvolvimento de aromas e sabores.

No entanto, há ainda um outro Nebbiolo de alta classe a ser descoberto, um aliás que reúne um conjunto particular de características que o fazem absolutamente peculiar. Nos referimos aqui a Valtellina, a região demarcada mais ao norte da Itália, já na fronteira com a Suíça, em meio aos Alpes.

A Valtelinna reúne uma séria de características que a tornam única. O primeiro e talvez mais destacado ponto é que a casta aqui é a Nebbiolo, localmente chamada Chiavennasca e reconhecida por ser uma variedade de maturação difícil, mas que produz excelentes vinhos em meio aos Alpes, onde menos se espera que ela alcance os melhores resultados.

Tal feito é alcançado por uma combinação única de fatores. A região está localizada em um vale formado pelo rio Adda, correndo no sentido Leste-Oeste. O vale fica entre os montes alpinos Retiche, ao Norte, e Orobie, al Sul, que bloqueiam ventos frios que possam vir de ambas as direções. Além disso temos a breva, brisa quente originaria do lago di Como que sobra durante boa parte da primavera e por todo o verão, ajudando a manter temperaturas mais elevadas bem como evitar doenças fúngicas causadas pela humidade.

Outro ponto é a localização dos vinhedos, na margem Norte do rio, em encostas íngremes de orientação Sul, em patamares não muito distintos daqueles que encontramos no Douro. Assim, contam as videiras com a melhor exposição solar possível, além do acúmulo de calor pelas pedras das quais são feitos os patamares, calor este que será dissipado após o por do sol mantendo a temperatura um pouco mais alta e favorecendo a maturação dos bagos de Nebbiolo.

A particularidade desta paisagem cultivada desde há muitos séculos atingiu seu ápice no século XIX, com mais de 6.000ha, dos quais hoje restam cerca de 850ha espalhados por mais de 2.500 Km de terraços, naquela que é a maior área deste tipo em toda Itália. Esta riqueza histórica, geográfica e paisagística faz da Valtellina candidata ao status de patrimônio da humanidade pela UNESCO, outro ponto de semelhança com o Douro vinhateiro.

Aqui encontramos vinhos de 4 distintas denominações. A IGT Alpi Retiche, a DOC Valtellina e as duas de maior destaque e qualidade, as DOCGs Valtellina Superiore e Sforzato di Valtellina (Sfursat). Os vinhos de maior destaque e qualidade são os produzidos nas duas DOCGs, que contam com as subzonas de Maroggia (a menor, com apenas 24ha), Sassella (vinhos de grande elegância), Grumello (vinhos macios e longevos), Inferno (austeros e estruturados) e Valgella (os mais simples e diretos). Apenas uvas destas subzonas podem ser utilizadas para o Valtellina Superiore, mas uvas de toda a zona podem ser utilizadas na DOCG Sforzato di Valtellina.

O Sforzato (Sfursat no dialeto local) é provavelmente o produto de mais renome, devido a particularidades de sua produção, que estão de certa forma ligadas ao clima limítrofe da região. O Sforzato é feito com uvas de colheita o mais tardia possível, que posteriormente ainda passam por um período de appassimento de várias semanas antes da vinificação. Grosso modo, trata-se de processo semelhante ao de produção de Amarone della Valpolicella, que entrega um vinho com maior corpo, estrutura e álcool, além de aromas de frutos mais doces e maduros. São vinhos secos, de grande profundidade e complexidade, exemplos ímpares daquilo que os italianos chamam de vinhos de meditação.

Pois não bastassem todos estes aspectos, que já fazem da Valtellina uma zona única e destacada, encontramos aqui mais uma particularidade; trata-se de uma rara situação em que o vinho cruza as fronteiras nacionais. Devido a proximidade com a fronteira Suíça, país onde muitos dos produtores locais vivem, a normas permitem o engarrafamento em território suíço, recebendo então a menção Stagafassli.

O resumo é que não são poucos os aspectos distintivos desta zona não tão conhecida, sendo indiscutivelmente o principal deles a elevada qualidade. Motivos de sobra para despertar o interesse do escanção moderno.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Campanha Gaúcha - Escanção

 

Campanha Gaúcha e As Fronteiras do Vinho Brasileiro

Há umas tantas edições atrás, utilizamos este espaço para apresentar um panorama da vitivinicultura brasileira, com novas zonas de produção se desenvolvendo a cada dia. De fato, o potencial do Brasil para a produção de bons vinhos é grande, temos um país de dimensões continentais e portanto com grande variedade de solos e climas.

Ainda que esse potencial não seja plenamente explorado, é inegável o interesse e abnegação de muitos e muitos empreendedores deste mundo, a cada dia dedicando-se a alargar nossas fronteiras vitivinícolas.

Neste processo, da busca pelo novo, legados vão ficando pelo caminho. Conforme aprofunda-se o conhecimento sobre regiões já tradicionais e segue-se adiante desbravando novas fronteiras, mais compreende-se as vocações particulares de cada região e as particulares de nossos muitos terroirs.

Parte crucial deste processo é o reconhecimento oficial de novas zonas de produção, garantindo aos produtores que ali investem a tranquilidade de que suas marcas regionais serão protegidas, bem como garantindo ao consumidor a procedência dos produtos que estrão em suas taças. Neste processo, o Brasil conta hoje com sete zonas de produção demarcadas, sendo uma DO (Denominação de Origem) e seis IPs (Indicações de Procedência). A inspiração é evidentemente o modelo Europeu, com as IPs correspondendo aos Vinhos Regionais de Portugal, com áreas de produção mais amplas e normas de produção mais abertas à criatividade e experimentação.

Em meio a pandemia que nos assola, quando o inevitável isolamento e as muitas restrições ao deslocamento levaram a um crescimento do consumo e do interesse do brasileiro por vinhos, especialmente os locais, foi aprovada pelos órgão governamentais brasileiros a criação de uma nova IP, a Campanha Gaúcha.

Ainda que a demarcação da IP só ocorra oficialmente agora em 2020, é seguro afirmar que ela vem já com algum atraso. Afinal não falamos aqui de uma região ainda debutante, com os primeiros vinhedos experimentais plantados há pouco e um ou outro produtor pioneiro. A Campanha tem tradições na produção de vinhos que remontam ao século XIX e, especificamente na fase atual do vinho brasileiro, é justamente aqui que se inicia a virada de nossa indústria em direção ao vinho fino, com a instalação da multinacional norte americana Almadén na década de 1970.

Nos últimos anos foram 18 as vinícolas que ali se instalaram, cultivando cerca de 1.600ha que fazem desta a 2ª mais importante região produtora do Brasil e com importante potencial de crescimento no futuro próximo.

Localizada na fronteira sul do país, no limite entre Brasil e Uruguai, a Campanha Gaúcha conta com importantes vantagens competitivas. O clima é mais quente, seco e estável do que aquele da Serra Gaúcha, nossa principal região. Desta forma, a maturação mesmo de castas tintas de ciclo mais longo é mais confiável e estável, fato ainda favorecidos pelos solos arenosos e de boa drenagem que aqui se encontram. Obtém-se aqui ótimos resultados com castas bordalesas, bem como com a Tannat, mas não faltam exemplos de bons vinhos feitos com castas menos comuns, como a Touriga Nacional, a Alvarinho, a Riesling, a Petit Manseng, entre outras.

Outra importante vantagem da Campanha Gaúcho é o relevo. A região é ampla e relativamente plana, com suaves colinas, parte de um bioma que compreende partes do Brasil e do Uruguai, o Pampa. Essa característica permite a mecanização dos vinhedos o que permite, por sua vez, a produção de vinhos com menor custo. Há de se considerar que, por não se tratar a vitivinicultura de uma atividade econômica de grande peso no PIB brasileiro, a carga tributária sobre os vinhos, mesmo os aqui produzidos, é significativamente alta. Logo, toda redução de custo acaba tendo um importante impacto no preço final.

Em tempo, com o aumento da produção local e maior compreensão da zona, a tendência é que tenhamos uma divisão da Campanha em zonas menores, afinal falamos aqui de uma região que tem, mais ou menos, metade da área de Portugal continental, portanto com importantes variações de solo e clima.

Já não são poucos os vinhos de alta qualidade produzidos na Campanha Gaúcha; também não são poucas as vinícolas tradicionais, instaladas na Serra Gaúcha, que adquirem aqui as uvas para alguns de seus melhores vinhos. O reconhecimento da IP permitirá maiores investimentos da identidade regional, tornando a região reconhecida por seus muitos méritos e facilitando o acesso do consumidor a vinhos cada vez melhores e mais representativos da grande diversidade cultural que compõem o Brasil.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Nova York - Revista Escanção

 

A cidade de Nova Iorque, mais precisamente a ilha de Manhattan, é a primeira imagem que a maioria de nós tem em mento quando se fala em Estados Unidos da América, como uma cidade cosmopolita e agitada, centro financeiro e endereço de alguns dos melhores restaurantes daquele país. Aqueles que tem o vinho como profissão certamente pensarão em vinho também, mas no consumo, nas muitas e estreladas cartas de vinhos que encontramos por lá.

A produção de vinhos não é nem de longe o primeiro pensamento. Vinhos dos Estados Unidos são, vai de regra, sinônimo de Califórnia, no outro lado do país, ou, também na costa Oeste, Oregon e Washington.

Ledo engano imaginar que Nova Iorque seja apenas um centro consumidor, engano esse causado, em parte, pelo nosso engano em imaginar que “Nova Iorque” seja apenas uma referência a cidade e nos esquecemos eu a cidade é apenas a pontinha Sul de um Estado, de dimensões significativas e grande produtor de vinhos.

Sim, para muitos pode ser uma surpresa essa informação, mas os estado de Nova Iorque é o terceiro maior produtor dos Estados Unidos, atrás apenas da Califórnia e de Washington, a frente de produtores mais conhecidos como Oregon e Virginia.

O detalhe é que grande parte da produção aqui é de vinhos simples, feitos com uvas americanas e pouco adaptados ao consumo por arte de degustadores mais experientes, entretanto já desde os anos 1970 cresceu significativamente o número de vinícolas focadas na produção de vinhos finos, com excelentes resultados, que fazem jus às exigências mais estritas.

Encontraremos aqui algumas importantes regiões produtoras, com um total de cerca de 15.000ha. Logo ao leste de Manhattan encontramos Long Island, que tem sua produção concentrada no extremo leste, onde o Oceano Atlântico exerce importante influência, mitigando os efeitos do inverno e aliviando a humidade do verão com brisas constantes. São mais de 1200ha de vinhedos em duas áreas de produção (AVA nos Estados Unidos, sigla de American VIticultural Area) a saber: North Fork of Long Island e The Hamptons.

The Hamptons é um destino famosos por seus casarões de veraneio, sempre agitados nos meses de calor, logo os vinhedos existem, mas são poucos, devido ao grande valor que a terra tem aqui. Consequentemente a maior parte da produção esta concentrada na AVA North Fork of Long Island, onde condições climáticas privilegiadas garantem um ciclo de maturação longo e quente o suficiente para amadurecer castas como Cabernet Sauvignon de forma confiável. Os melhores exemplares da região são obtidos com as castas Cabernet Franc, Chardonnay, Merlot, Riesling e Sauvignon Blanc, mas a variedade local é grande e inclui mesmo castas como Dornfelder, Friulano, Vermentino, Alvarinho, Grüner, entre outras.

As demais áreas de produção do estado ficam ao Norte, rumo ao Canadá. Bem próximo à cidade, encontraremos a AVA Hudson River Region, que compreende as áreas de cultivo nas margens do rio Hudson. Os primeiros vinhedos foram plantados aqui ainda no séc. XVII e a mais antiga vinícola americana em operação contínua está ali, Brotherhood Winery, fundada em 1839. Aqui temos apenas cerca de 200ha, com os melhores resultados advindos de castas mais adaptadas ao clima mais frio, principalmente Cabernet Franc, Chardonnay, Pinot Noir e a hibrida Baco Noir, muito popular aqui.

Mas aquela que tem chamado mais atenção é a região de Finger Lakes AVA, com duas sub zonas, Cayuga Lake AVA e Seneca Lake AVA. Com um total de mais de 3600ha de vinhedos, a região conta com importantes expoentes do cultivo de variedades viníferas de clima frio. Aqui encontramos excelentes vinhos feitos com velhas conhecidas como Riesling, Cabernet Franc e Chardonnay, mas também com as menos comuns Gewürztraminer e Rkatsiteli. A produção aqui só é possível devido aos lagos, profundos, estreitos no sentido leste/oeste e longos no sentido norte/sul, assemelhando-se às marcas deixadas por garras arranhando a terra, daí seu nome.

Estes lagos foram formados pelo deslocamento de geleiras ao final da última Era do Gelo e o clima mais ameno em suas margens sempre foi um atrativo para a produção de frutas e também uvas, porém o enfoque sempre foi em variedades americanas ou hibridas até que em 1962 o imigrante ucraniano Konstantin Frank iniciou sua produção na vinícola homônima. Evidentemente, em uma área de clima assim frio, também vamos encontrar deliciosos vinhos de sobremesa feitos com uvas congeladas, os ice wines.

A região conta ainda com outras duas AVAs, Niagara Escarpment, com foco nas brancas Chardonnay e Vidal Blanc, e Lake Eire, esta compartilhada com Ohio e Pennsylvania, com cerca de 8.000ha de vinhedos apenas em Nova Iorque, porém dedicados principalmente a variedade americana Concord, que produz vinhos simples, sucos e geleias.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Canadá - Revista Escanção


A produção global de vinhos, ainda que liderada pela Europa, conta já há muito com importantes países do Novo Mundo entre os mais destacados produtores, com vinhos de qualidade e bom preço em volumes expressivo. Entre os maiores volumes produzidos, encontraremos países como Argentina, Austrália e Estados Unidos. Precisamente os Estados Unidos ocupam uma posição muito especial, como o 4º maior produtor mundial e um dos principais mercados consumidores.
Ainda que os grandes volumes, de produção e consumo, estejam nos Estados Unidos, não é estes país produtor exclusivo na América do Norte; afinal temos um importante volume de produção ao Sul, no México, além de vinhos de classe internacional, que receberão nossa atenção hoje, ao Norte, no Canadá.
Com mais de 12.000ha de vinhedos, o Canadá ainda é um produtor tímido no cenário global; basta citar que apenas o pequenino Napa Valley tem uma área de vinhedos superior. Mas o que deixa a mais notável impressão aqui é não o volume, mas sim a qualidade dos vinhos, já elevada e ainda em evolução.
As referências imediatas que se tem do Canadá são as de um país frio, com um vasto território gélido e inexplorado comercialmente, até por conta da real impossibilidade da agricultura comercial ter sucesso em temperaturas tão baixas. Mas mesmo essa característica tem sua importância no posicionamento dos vinhos canadenses no mercado, como veremos a seguir.
Ainda que a história do vinho no Canadá venha já desde os séculos XVII e XVIII, a moderna indústria do vinho tem seu início nos anos 1970 e passa a realmente crescer e organizar-se na década seguinte, após a assinatura dos primeiros acordos de livre comércio com os EUA. De lá para cá, ainda que com volumes de produção pequenos, o Canadá vem encontrando seu espaço, posicionando-se como um produtor de vinhos de clima frio, com grande sucesso com castas como a Pinot Noir a Riesling e a Chardonnay, além de ter como seu produto emblemático os vinhos doces feitos com uvas congeladas, os Icewines. Essa especialidade, comum na Alemanha e em outros países do Leste Europeu, encontra aqui condições ideais para sua produção com qualidade e constância, em função dos sempre rigorosos invernos do país, onde as temperaturas exigidas por lei para que as uvas congelem totalmente nos vinhedos, -8°C, são atingidas com relativa facilidade.
A uva mais utilizada na produção dos Icewines canadenses é a Vidal Blanc, hibrida, resistente ao frio e de maturação mais rápida, porém os melhores exemplares só aqueles produzidos a partir da Riesling. Também há cultivos expressivos de variedades hibridas para a produção de vinhos secos de mesa, inclusive com uma DO, Tidal Bay, em Nova Scotia, que deve ter seus vinhos brancos compostos majoritariamente de hibridas, sendo L’Acadie a principal delas.
São duas as províncias que produzem a imensa maioria dos vinhos, nas duas “pontas” do país; Ontario no Leste e British Columbia no Oeste.
A produção em British Columbia vem crescendo de forma consistente, com um aumento expressivo do número de vinícolas ali instaladas. As principais zonas de produção são o Okanagan Valley e o Simikameen Valley, cerca de 250km à Leste de Vancouver; aqui as chuvas que vem do Pacífico são bloqueadas por uma cadeia montanhosa e, no caso de Okanagan o profundo lago que da nome a zona ajuda na regulagem das temperaturas, permitindo uma melhor maturação, em alguns casos mesmo de uvas bordalesas, especialmente no sul da região, mais quente.
A principal região produtora do país, tanto em volume quanto em reconhecimento, ainda é Ontário, com mais de 80% dos seus vinhedos localizados na península do Niágara, de onde saem muitas dos mais reconhecidos rótulos nacionais. Há outras zonas de produção em Ontário, em Pelee Island, Lake Eire North Shore e Prince Edward County, mas é em Niágara que efetivamente a mágica acontece.
Os solos são formados por depósitos glaciais, do final da última Era do Gelo, com boa presença de calcário. A variedade de solos e estilos, bem como a prominência comercial da zona, levaram a sua subdivisão mais detalhada, com 12 sub apelações, algumas delas já reconhecidas pela qualidade de seus vinhos, como Beamsville Bench e Niagara Escarpment. Aqui, a grande massa de água do lago Ontario serve par mitigar os efeitos das frias massas de ar que vem do Ártico, enquanto que a diferença de temperaturas entre este e o lago Erie, mais ao Sul, fazem que sempre tenhamos ventos circulando, o que aumenta a proteção contra geadas e doenças fúngicas.
Chardonnay, Pinot Noir, Riesling e Gamay brilham aqui, mas mesmo castas como a Syrah tem dado bons resultados, além de varietais menos comuns internacionalmente, como Gewürztraminer e Pinot Gris. A província vizinha, de colonização francesa, o Québec, tem também sua viticultura, com cerca de 100 pequenas vinícolas, mas sem grandes volumes de produção.
O única selo “nacional” de qualidade, indicando eu a regulamentação e controles sobre a produção, é o VQA, Vintners Quality Alliance, que exige 100% de uvas canadenses nos vinhos, mas tem seus pormenores regulamentados de forma compartimentada, por cada uma das províncias.
Ainda no campo das bebidas, outros produtos nacionais canadenses também devem receber atenção do Escanção, sobretudo por sua qualidade, a saber, os whiskies, feitos em estilo macio e suave, além das cidras, amplamente produzidas e com elevada qualidade. Aliás, o grande sucesso do Icewine serviu de inspiração para a criação de um produto similar, a Ice Cider, produzida de forma semelhante, mas com maçãs congeladas, algo só possível no rigoroso inverno canadense, uma vez que ao contrário das uvas, que congelam já a partir dos -6°C, maçãs só vão congelar a partir de -25°C. Mas o esforço na produção compensa, com produtos deliciosamente doces e aromáticos, concentrados e equilibrados por brilhante acidez.


sexta-feira, 22 de maio de 2020

Tokaj - Revista Escanção


Hungria e os Vinhos de Tokaj
Neste espaço que já há muitas edições temos falado sobre países e regiões produtoras do Novo Mundo, voltamos agora à Europa; uma Europa de tradições seculares mas que permaneceu em segundo plano ao longo do séc. XX, voltando a receber a devida atenção e destaque após a queda do Muro de Berlim.
O centro de nossa conversa hoje é a tradicional região de Tokaj-Hegyalja, renomada pelos vinhos doces Tokaji ali produzidos, os mais antigos vinhos feitos a partir de uvas atingidas pela podridão nobre, pré-datando em um século os exemplares similares do Reno.
Porém, antes cabe um, importante, parêntese. A Hungria vai muito além do Tokaji! É um país produtor que merece toda nossa atenção, pela sua história, variedade e qualidade dos vinhos ali produzidos. A Hungria tem um sistema de DOCs, alinhado com a legislação da União Europeia, designado OEM, Oltalom alatt álló Eredt Megjelöléssel, com regiões demarcadas por todo o país, fazendo bom uso não apenas de castas internacionais ali bem aclimatadas, mas sobretudo de sua rica coleção de castas locais, como as tintas Kékfrankos e Kadarka ou as brancas Ezerjó e Leányka. Das muitas regiões demarcadas, cabe destacar como zonas de especial interesse Villány, no sul do país e de grande renome internacional, Sopron, praticamente uma continuação da região austríaca de Burgenland, e Eger, à meio caminho entre Budapeste e Tokaj, onde produz-se o tinto Bikavér (sangue de touro), com lendas de sua origem remontando ao séc. XVI.
Mas, ainda que a qualidade destes vinhos e de tantos outros seja superior, é inegável que o mais conhecido de todos os vinhos húngaros é, de fato, o Tokaji. Aqui já cabe a primeira distinção; Tokaj Wine Region é como eles se referem a região produtora, que fica dentro da região de Tokaj-Hegyalja, sendo a vila de Tokaj sua principal cidade, enquanto o vinho ali produzido é o Tokaji, com registros de sua produção desde o séc. XVII, com a primeira demarcação da região de produção feita em 1703, antecedendo ao Porto em mais de 50 anos, porém sem uma regulamentação das normas de produção, ponto no qual o pioneirismo cabe a Portugal.
Tokaj fica no Nordeste da Hungria, na fronteira com a Eslováquia, aliás, parte da região originalmente demarcada está em território eslovaco, sendo permitida também a produção de vinho Tokaji naquele país. As encostas dos montes Zemplén definem a geografia local, bem como tem crucial importância na composição dos solos, estes de origem vulcânica, de diferentes eras geológicas, conferindo variedade aos vinhedos locais. O Monte Kopasz, ao norte da vila de Tokaj, marca o relevo da região, com os vinhedos localizados principalmente em suas encostas, em um formato de V, com orientações sudeste-sul-sudoeste.
Além destes aspectos, outro ponto fundamental para a produção destes vinhos são os dois cursos d’água, o Bodrog (mais importante) e o Tisza, que convergem no sul da montanha. Daqui nascem as névoas matinais que recobrem os vinhedos no princípio do outono, fornecendo a umidade necessária ao desenvolvimento da botrytis. A principal uva da região é a Furmint, cerca de 70% dos vinhedos, valorizada por sua marcante acidez, além da casca fina, que a torna altamente suscetível a podridão nobre. Esta é complementada pela Hárslevelű e, em pequena quantidade, pela Moscatel, aqui chamada Sárgamuskotály, além de volumes muito pequenos das variedades locais Zeta, Kabar eKövérszőlő.
Sua rica história, com vinhos apreciados e procurados nas cortes europeias dos séculos XVIII e XIX, Tokaji foi um dos poucos, senão o único, vinho do Leste Europeu que manteve algum interesse demanda nos mercados ocidentais mesmo durante o período de influência soviética, porem não sem algum prejuízo, pois não havia então o mesmo cuidado e primor técnico destinado hoje a estes vinhos, sendo valorizado o volume em detrimento da qualidade (que foi bem baixa neste período), com vinhos produzidos em um estilo bem mais oxidativo e até mesmo fortificado, algo que jamais foi permitido mas, diz-se, era praticado em tempos de comunismo. A virada qualitativa vem a partir de 1989, quando a Hungria abre-se para investimentos externos e, devido a sua fama, Tokaj é a primeira região a atrair interesse, com a Royal Tokaj, à qual seguiram-se muitas outras que foram renovadas e/ou modernizadas, fosse com capital estrangeiro ou local, entre as quais podemos citar a Oremus (do grupo Vega Sicilia), Disznókő, do grupo francês AXA, e o produtor local István Szepsy.
Ainda que os vinhos doces sejam os mais famosos, vinhos secos também são produzidos aqui, aliás com enorme importância para a economia da região. Estes entram na categoria Szamorodni száraz, vinhos que tradicionalmente eram obtidos com cachos colhidos inteiros, sem distinção entre uvas saudáveis e botrytizadas, produzindo um mosto fermentado até o final, deixando muito pouco ou nenhum açúcar residual. Mas a grande estrela local são, de fato, os vinhos doces. Antes da safra 2013, utilizava-se uma classificação algo mais detalhada, com vinhos doces Late Harvest, nos quais a botrytis, ainda que usual, não era obrigatória, e com os vinhos doces Aszú, estes necessariamente com botrytis, sendo seu nível de doçura medido em puttonyos, de 3 a 6. Um puttonyo é um tradicional balde de madeira, que comporta entre 20 e 25kg de uvas Aszú, que seria adicionado a um gönci, barrica de 136/137 litros completada com vinho base seco, logo, quanto mais puttonyos, mais doce o vinho.
A partir de 2013 essa classificação deixou de ser utilizada, com o objetivo de simplificar a compreensão por parte do consumidor. Hoje temos os Tokaji Late Harvest e os Tokaji Aszú, sendo estes últimos obrigatoriamente botrytizados e com um açúcar residual mínimo equivalente ao que antes era um Tokaji 5 puttonyos. Mais simples e direto, não?
No topo, entre os mais raros e inebriantes vinhos doces do mundo, encontraremos o especialíssimo Tokaji Eszencia. Este é produzido unicamente com o mosto flor de uvas botrytizadas, com níveis elevadíssimos de doçura e acidez, o que faz que sua fermentação possa levar anos para chegar, quando muito, em um teor alcoólico por volta dos 5°. São vinhos que precisam ter um mínimo de 450g/l de açúcar residual, embora exemplares na casa dos 800g/l não sejam incomuns; vinhos para beber em pequenos goles, impressionando permanentemente a memória.
O caráter da botrytis é marcado nos vinhos de Tokaji como nos de Sauternes, mas estes têm, em geral maior acidez do que os franceses, o que os torna menos enjoativos e mais gastronômicos. Essa característica é partilhada com os Trockenbeerenauslese alemães, com a vantagem de que a produção de Tokaji e mais estável, permitindo que estes tenham preços mais acessíveis que aqueles. Por isso, Tokaji ocupa uma posição privilegiada entre os principais clássicos obtidos a partir da podridão nobre, merecendo integrar sempre a seleção do escanção moderno.

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