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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Degustação - Château Rieussec 1998 e Château d"Yquem 1998

Enfim, os doces! As melhores calorias de qualquer refeição.
Aqui, acompanhando um delicado canapé de foie gras em calda de kinkan e especiarias, e, mais tarde, uma trilogia de brullés, pudemos degustar duas jóias da vitivinicultura bordalesa, mais especificamente da comuna de Sauternes. Embora não hajam registros precisos sobre quando iniciou-se a produção de vinhos doces nesta região, existem indícios que apontam para a comercialização de vinhos doces aqui já no séc. XVII. Sauternes goza de condições muito específicas de relevo e clima, que permitem o surgimento da podridão nobre, a botrytis cinerea, praticamente todos os anos. O relevo e a presença do Ciron, tributário do rio Garonne, garantem as condições muito precisas de umidade e insolação necessárias.
Inicialmente, Rieussec, vizinho de cerca do Château de Yquem.

Esta propriedade pertencia, até a revolução francesa, ao monges Carmelitas de Langon, tendo sido então confiscada e posteriormente vendida a proprietários particulares. Após várias trocas de comando, Rieussec passou, em 1984, ao comando do Baron Eric de Rothschild, proprietário de Lafite. Desde então grandes investimentos tem sido feitos visando a melhora significativa dos vinhos ali produzidos, sempre tendo em mente o grande potencial de seu terroir, muito próximo a Yquem.
As colheitas, desde então, tem sido mais criteriosas, e a vinificação mais bem cuidada, incluindo o uso de barricas novas, e maiores estágios em madeira, sempre visando um vinho de qualidade superior; fato este que se confirma na taça.
A coloração é de um dourado intenso, com bom brilho, e boa consistência. No nariz, um toque cítrico, com casca de limão siciliano, abacaxi em calda, flores brancas, cera e mel de abelhas, além das evidentes notas de botrytis. Em boca, bom frescor, longo, macio e equilibrado, com mel evidente no retro olfato. Excelente vinho.
5D
E por fim, o ícone máximo dos vinhos doces da França, o Château d'Yquem.

Pertencente aos ingleses até 1453, quando passou ao controle francês, Yquem sempre foi reconhecido como a melhor propriedade da região. De 1785 até 1999 foi controlado pela família Lur Saluces, que levou este vinho da condição de grandioso a condição de icônico, que ele ocupa até hoje, Desde 1999 o controle acionário pertence ao grupo LVMH, e desde 2004 cabe a Pierre Lurton a direção da vinícola.
A safra de 1998 apresentou alterações climáticas que levaram a duas colheitas em Yquem, em setembro e outubro, afim de garantir a colheita apenas das melhores uvas. Vale lembrar que esta prática é comum no Château, que já chegou a ter 14 colheitas em um mesmo ano, sempre recolhendo apenas as uvas perfeitamente secas e atingidas completamente pela podridão nobre.
A coloração deste Yquem é de um belo tom dourado, com ótimo brilho, já evocando seu agradável frescor. No nariz, muito complexo, com notas balsâmicas, mel, frutas amarelas em calda, cera, caramelo, tostado, jasmim e flor de laranjeira, além de botrytis. Na boca, denso, cremoso, com bom frescor, quase viscoso, com doçura equilibrada e longo final de boca. Um belo exemplar, que faz jus a fama deste grande vinho.
5D+


Château d'Yquem ao fundo, com uma parte de seu privilegiado terroir
 A impressão geral deste painel foi bem positiva. Conforme eu já havia mencionado no primeiro post desta série, eu já havia degustado a maior parte destes vinhos, porém em ocasiões diferentes, nunca todos em uma só ocasião, como aqui. Minha opinião, em parte, permanece; grandes vinhos são grandes vinhos, de fato, porém com preços que não correspondem perfeitamente a suas qualidades. Afinal, para ficar no caso destes últimos dois, Yquem é um grande vinho sim, superior ao Rieussec sim, mas não 4 vezes melhor, embora seja, nesta safra em especial, 4 vezes mais caro.
Não me ajoelho e faço reverência a estes grandes nomes, mas reconheço que são sim merecedores de sua fama, que foi construída ao longo de séculos, e não em meras três décadas de boas notas recebidas de críticos nacionais! (Sim, isso foi uma crítica aos vinhos californianos endeusados pelo duo Parker/Wine Spectator)
Perceber a constância, a qualidade e a elegância deste belos vinhos só reforçam meu respeito pelos vinhos franceses das denominações mais tradicionais, pois saborear estas especialidades, mais do que saborear bons vinhos, sempre é saborear uma boa dose de história, história muito saborosa, diga-se de passagem!
Bom, espero que tenham gostado deste relato. Dúvidas sobre meu sistema de pontuação? Leia o post "Degustações e Pontuações".
Grande abraço e até a próxima!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Degustação - Château Lafite-Rothschild 2002 e Château Haut-Brion 1999

Apenas relembrando, para quem não acompanhou meus últimos quatro posts, venho apresentando aqui um pouco mais a respeito dos vinhos degustados durante o memorável jantar ocorrido no Olivetto Restaurante e Enoteca em novembro, do qual já passei o cardápio completo em outro post.Agora, encerrando nossa seleção de tintos, mais dois belos Premier Crus, Lafite e Haut-Brion.
Inicialmente, o Château Lafite-Rothschild 2002!

Embora esta propriedade compartilhe o sobrenome com o Château Mouton, ambas são totalmente independentes, pertencendo a ramos separados da família. O Château Lafite em especial é uma propriedade muito antiga, com os primeiros registros a seu respeito datando de 1234. Porém, assim como a Château Latour, apenas no séc. XVII a propriedade passou a gozar de maior prestígio. Nesta época Lafite, Latour e Mouton pertenciam ao mesmo dono, Jacques de Ségur. No princípio do séc XVIII, seus descendentes obtém êxito em fornecer vinho para a casa real, fazendo com que Lafite se tornasse, na época, o vinho favorito da corte francesa. Testemunho da qualidade superior do vinho já nesta época, vem dos escritos do ex-presidente americano Thomas Jefferson, então embaixador da jovem república dos Estados Unidos na França. Após alguns meses de visitas e estudos dos vinhedos e vinhos de Bordeaux, Jefferson inclusive elaborou sua própria classificação de qualidade dos vinhos da região, e apontou como os melhores vinhos justamente aqueles que, mais de 70 anos depois, seriam os quatro Premier Crus Classés originais, Lafite, Latour, Margaux e Haut-Brion.
É importante frisar que durante todo este período, as trocas de comando foram frequentes, como é comum à história de muitas propriedades bordalesas. Foi apenas mais de uma década após a classificação de 1855, mais precisamente em 1868, a o Château Lafite foi adquirido pelo Barão James de Rothschild, e passou, então, a ostentar seu sobrenome.
Hoje a propriedade é administrada pelo Barão Eric, que foi o responsável pelas recentes renovações pela qual o Château passou, com melhoria em sua estrutura, avanços tecnológicos, e aquisição de outras propriedades, na França e fora dela, como por exemplo Duhart-Millon, Rieussec, Viña Los Vascos, entre outras.
Mas, dados históricos a parte, vamos ao vinho!
A safra 2002 não foi fácil, com um inverno quente e seco, e temperaturas baixas na época da floração, o que levou a quedas de rendimento, devido ao desenvolvimento desigual das videiras. Melhoras mais próximas a colheita permitiram, apesar das quantidades menores, obter-se, ainda assim, vinhos de boa qualidade, densos, com taninos fechados, e bom potencial de guarda. A coloração ainda é de um rubi intenso, com poucos sinais de evolução; o nariz é fechado, demora a se mostrar, com notas balsâmicas, especiarias doces, castanhas e um leve floral. Em boca, ótimo frescor, fino e agradável, com taninos de boa qualidade, elegantes e bem colocados, dando suporte a um longo fim de boca. Um vinho que definitivamente ainda precisa de alguns anos de adega para mostrar o seu melhor.
5D+
Em seguida, o único Premier Cru de fora do Médoc, o Château Haut-Brion!

A propriedade existe como produtora de vinhos de alta qualidade em Péssac-Léognan desde o séc XV, e desde então passou pelas mãos de cinco famílias. Vale destacar que, na "classificação" informal feita por Thomas Jefferson, Haut-Brion era seu favorito. A propriedade foi adquirida em 1934 pelo banqueiro americano, filho de uma francesa, Clarence Dilon, e é administrada desde 2008 por seu bisneto, Príncipe Robet de Luxembourg. Outra característica importante deste vinho é seu caráter único, com marcadas notas animais, que o tornam, em geral, muito fácil de ser reconhecido em meio aos demais Premier Crus, mesmo às cegas. Isto se deve a presença de Brettanomyces, uma cepa de levedura que, embora muitos considerem um defeito, em pequenas quantidades pode acrescentar uma significativa complexidade aromática ao vinho. Aqueles que defendem a presença de Brett como um componente de complexidade, usualmente citam Haut-Brion como exemplo; afinal, seria impossível imaginar este vinho sem seu marcado caráter olfativo.
A safra de 1999 em especial foi marcada por uma série de eventos meteorológicos extremos, mas resultou, ao final, em vinhos de boa qualidade. Este Haut-Brion em particular apresenta coloração rubi intensa, com discretos reflexos grená; no nariz, uvas passas, notas animais, estábulo, especiarias e flores, tudo muito bem integrado; em boca, intenso, com muitos e finos taninos, macio, potente e longo.
5D+
Bom, espero que tenham gostado. No próximo post, sobremesas, com dois vinhosinhos da região, Château Rieussec e Château d'Yquem, ambos 1998. Até lá!
Dúvidas sobre o meu sistema de pontuação? Leia o post "Degustações e Pontuações".
Grande abraço e até a próxima!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Degustação - Château Mouton-Rothschild 1998 e Château Latour 1999

Ok, vamos então aos Premier Crus!! Começando por aquele que é praticamente um neófito no grupo, o Château Mouton-Rothschild.
O vinho...

...e o Château.

Como muitos de vocês devem saber, os vinhos da margem esquerda de Bordeaux foram classificado em 5 níveis de qualidade em 1855, por ordem de Napoleão. A classificação completa, sua história, e mais uma série de informações mais detalhadas podem ser encontradas no site oficial dos Grands Crús Classés. Porém, nesta classificação inicial, apenas 4 propriedades receberam a honraria máxima, e Mouton Rothschild não era um destes! Ao Château Mouton coube encabeçar a listas do 2eme Crús, fato que não foi muito bem aceito pelo seu proprietário, Baron Nathaniel. O Barão havia comprado a propriedade 2 anos antes, e alterado seu nome, que até então era Château Brane-Mouton, para o nome atual. O objetivo do Barão então era tão somente servir seu próprio vinhos aos seus convidados, de modo que seus descendentes diretos não demonstraram grande interesse pelo negócio do vinho, situação que permaneceu até 1922, quando o Baron Philippe de Rothschild, então com apenas 20 anos de idade, assumiu a vinícola com entusiasmo renovado, e com o firme proposito de levar Mouton ao status de Premier Cru, propósito bem representado pelo lema então adotado pela vinícola; "Premier ne puis, Second ne daigne, Mouton suis!" (Primeiro eu não posso ser, Segundo eu não quero ser, Mouton eu sou!).
Finalmente, em junho de 1973, após anos de intenso lobby, Baron Philippe finalmente consegui que a classificação de 1855 fosse alterada pelo ministério da agricultura, incluindo Mouton-Rothschild entre os Premiers Crus. Esta foi a única alteração feita então, e nenhuma nova mudança foi feita desde 1973. Se o status é merecido ou não, isso já é uma longa história... Não provei safras o suficiente deste ou dos demais 1er Crus para poder emitir uma opinião a respeito, mas, merecido ou não, o fato é que para fins de promoção e, principalmente, preço, Mouton é um 1er Cru Classé.
Mas, vamos ao que importa, o vinho. Começando pelo rótulo, que traz uma pintura do artista mexicano Rufino Tamayo. Aliás, esta é outra curiosidade dos vinhos de Mouton; desde 1945 a cada ano um artista diferente é convidado a ilustrar seus rótulos. Esta honra já coube a gente do calibre de Pablo Picasso, Salvador Dalí, Andy Warhol, entre outros.
Já o líquido propriamente dito, apresenta coloração rubi de média/alta intensidade, com discretos reflexos grená. No nariz, complexo e fino, com leve notas minerais, fruta negra, groselha e especiaria, além de notas de caramelo e balsâmicas. Em boca, é macio, fresco, elegante, sápido, com taninos finos e abundantes e longa persistência, evocando notas de especiarias no fim de boca.
5D
Em seguida, Château Latour 1999!


Em primeiro plano a "tal" da torre, com o Château ao fundo.

A propriedade cultiva vinhas desde 1331, porém a partir do séc. XVII é que a propriedade passou a gozar de mais destaque, em função de seu proprietário na época, proprietário também dos Châteaux Lafite e Mouton. Depois de várias mudanças de proprietário, em 1993 Latou finalmente voltou a mão francesas, tendo sido adquirido por François Pinault, proprietário até os dias de hoje. Com 78 ha de vinhas, com uma média de 40 anos de idade, é reconhecido pela sua potência e fineza.
Este 1999 em particular apresenta uma intensa coloração rubi, apenas com laivos de grená, denotando ainda juventude. No nariz, concentração, com tabaco, caixa de charuto e grafite, fruta negra, cassis, e ainda notas balsâmicas, muito complexo. Em boca é intenso, complexo, com taninos firmes, finos e abundantes, sápido e fresco, com muitas frutas no longo retro olfato. Meu favorito!
5D+
Bom, espero que tenham gostado. No próximo post, Lafite e Haut Brion. Lembrando que estes vinhos, embora esteja disponíveis em várias importadoras, foram fornecidos para este evento em particular pela Wine Stock, importadora especializada em vinhos franceses, e que apresenta preços muuuito competitivos.
Dúvidas sobre meu sistema de pontuação? Leia o post "Degustações e Pontuações".
Grande abraço e até a próxima.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Degustação - Château Lynch-Bages 1999 e Le Petit Cheval 1999

Château Cheval Blanc

Ok, após uma pequena pausa de final de ano, vamos adiante conforme o prometido no post anterior, agora com os vinhos tintos, o começando com dois exemplares de elevada qualidade, por certo entre os grandes nomes da região.
Inicialmente, o Château Lynch-Bages 1999!

Já havia comentado sobre este vinho aqui, porém da safra 2005. Neste post, que pode ser acessado pelo link, você encontrará mais informações sobre o Château e um pouco de sua rica história. Aqui, vamos direto ao ponto; o vinho.

 Esta safra em especial foi uma boa safra em Bordeaux, mas não excepcional, fato que acaba se destacando com a safra seguinte, 2000, esta sim uma safra acima da média. O Lynch-Bages em especial, sempre uma boa aposta entre os bons Châteaux de Bordeaux, apresentava uma coloração já discretamente evoluida, com reflexos grená em sua coloração rubi de média/alta intensidade. No nariz, fruta fresca, muita especiaria, notas florais, e já alguns aromas terciários, como couro. Uma paleta de aromas que se mostra aos poucos, conforme o vinho respira. Já em boca, um vinho fresco, vivo, com médio corpo, com taninos muito finos, e uma longa persistência.
5D

Agora, atravessando o rio, rumo a Saint-Émilion, rumo ao Château Cheval Blanc.

Aqui uma particularidade, pois trata-se do único grande vinho de Bordeaux a utilizar um percentual superior a 50% de Cabernet Franc em seu corte. Lembrando que o solo da margem direita do rio que corta Bordeaux leva as uvas em geral a uma maturação mais lenta, o que favorece em particular a Merlot, casta de maturação mais precoce que a Cabernet Sauvignon. E foi neste terroir em particular que o Château Cheval Blanc, propriedade criada na sua configuração atual em 1871, atingiu bons resultados com a Cabernet Franc, "irmã" menos encorpada e mais delicada da Cabernet Sauvignon, e que normalmente entra em pequenas quantidades nos vinhos da região, apenas para acrescentar um pouco de frescor e notas aromáticas mais frescas e florais.
A propriedade é classificada desde 1954 com Premier Grand Cru Classé "A", classificação concedida ao vinhedo, e não ao vinho, de modo que o segundo vinho, Le Petit Cheval, também ostenta e denominação Grand Cru Classé em seu rótulo.
O 1999 em especial leva um pouco a mais de Merlot que o normal, em função de particularidades climáticas da safra que favoreceram a maturação adequada desta casta. Apresenta uma coloração rubi com reflexos grená, já denotando alguma evolução, que se confirma no nariz, com fruta vermelha madura, café espresso, caramelo e notas balsâmicas. Em boca, boa acidez, com uma pontinha de álcool, taninos muito finos e longa persistência, com discreta predominância das notas balsâmicas no retro olfato.
4D+
Bom, por hoje é só! Desejo um 2012 pleno de alegrias e realizações para todos que me acompanham por aqui, e nos vemos no próximo post, com Mouton-Rothschild e Latour.
Dúvidas sobre meu sistema de pontuação? Leia o post "Degustações e Pontuações".
Grande abraço e até a próxima.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sinfonia de Brancos de Portugal

Ok, o título é meio poético, mas não é de minha autoria. A convite da Vinhos de Portugal apresentei no último dia 26 uma palestra e degustação com este tema, durante a Semana Mesa SP, organizada pela revista Prazeres da Mesa. Já escrevi bastante sobre Portugal aqui, até por conta de minha viagem para lá no meio do ano, mas, pelos vinhos que provei nesta apresentação, achei que valia a pena me repetir...

Nossa tendência, aqui no Brasil, é pensar em Portugal apenas por conta de seus tintos, além do Vinho do Porto. Porém, dentro do seu universo de quase 300 castas autóctones, as brancas desempenham um papel importante na vitivinicultura lusitana. De norte a sul produz-se bons brancos, dos mais variados estilos; alguns muito particulares, outros, de classe internacional. Nesta prova, pude averiguar, mais uma vez, por meio de um panorama por várias castas e regiões, a elevada qualidade média dos brancos de nossos patrícios, e minhas impressões sobre os vinhos degustados partilho agora com vocês.

1 – Quinta da Aveleda 2010 (Vinhos Verdes)
Já degustado e comentado aqui, por ocasião de minha visita à Aveleda. Um Vinho Verde “de manual”, com bom frescor, aromas cítricos, alguma mineralidade e boa persistência, obtido a partir de um corte de Alvarinho, Loureiro e Trajadura. Ótima pedida para o nosso verão, é importado pela Interfood, e custa cerca de R$ 37,00.

3D

2 – Quinta do Cruzeiro 2010 (Vinhos Verdes)

Aqui o corte já é de Loureiro, Arinto e Trajadura. Um pouco mais fresco e aromático, com um floral mais intenso. A vinícola é representada pela Tambuladeira, empresa que representa os interesses de várias pequenas vinícolas portuguesas no mercado brasileiro. Importado pela Gracciano, custa cerca de R$ 30,00.

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3 – Campolargo Arinto 2010 (Bairrada)

Um dos ótimos vinhos de Carlos Campolargo, este Arinto surpreende. Ótimo frescor, notas de frutas amarelas frescas, algo de cítricos e florais, entremeados por delicadas notas biscoitos, por canta de sua maturação sobre borras finas. Cremoso, preciso e persistente. Importado pela Mistral, custa cerca de R$ 100,00.

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4 – Monte de São Sebastião Branco 2010 (Douro)

Este corte de Rabigato, Códega do Larinho e Gouveio está entre os bons vinhos brancos do Douro, com estilo e elegância para o mercado internacional. Fresco, mineral, de média persistência, com um agradável retrogosto. É importado pela Vinhas do Douro, e custa cerca de R$ 64,00.

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5 – Maritávora Reserva 2009 (Douro)

Também representada pela Tambuladeira, a Maritávora fica localizada no Douro Superior, e conta com os serviços do enólogo Jorge Serôdio Borges. Elaborado com Códega do Larinho, Rabigato, Viosinho, e uma parcela de 20% de vinhas velhas, é um branco complexo, macio, que evidencia sua fermentação em barricas. Cítricos, ervas aromáticas, notas minerais e discreto tostado, com boa persistência. Importado pela Gracciano, custa cerca de R$ 125,00.

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6 – Baron de B Reserva 2009 (Alentejo)

Produzido pela Herdade da Calada, com a casta Antão Vaz, que em muitos pontos lembra a Chardonnay, como sua boa adaptação a climas quentes, e sua aptidão ao uso de madeira. Um branco de mais corpo, macio, com média acidez e notas de fruta madura. Bem agradável. Importado pela Adega dos Três, custa cerca de R$ 80,00
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7 – Monte Cascas Malvasia Colares 2008 (Lisboa – Colares)

O vinho que mais me surpreendeu nesta prova. Produzido na região de Colares, dentro da grande Lisboa, com a casta Malvasia Fina. As videiras são plantadas em solo arenoso, sem nenhuma condução específica, ou seja, como um arbusto. A fermentação se dá em barricas, e segue um período de 11 meses de maturação sobre as borras, com battonage quinzenal. A coloração é um belo palha-dourado, no nariz, iodo, maçãs, notas oxidativas, amêndoas, lembrando um pouco um Jerez Fino. Em boca, tem bom corpo, excelente frescor, e uma marcada sapidez, quase salgado. Longo e equilibrado. É importado pela MS, com um preço de cerca de R$ 150,00

5D

8 – Venâncio da Costa Lima Moscatel de Setúbal (Península de Setúbal)

Equilibrado, com notas marcadas de doce de laranja e frutas cristalizadas. Doçura agradável e boa persistência. É importado pela Deu La DeuVinhos, e custa impressionantes R$ 27,00.

3D+

9 – Bacalhôa Moscatel de Setúbal 2004 (Península de Setúbal)

Mais complexo e elegante, com algo de flores, amêndoas e nozes, além de mel, frutas secas e cristalizadas. Excelente exemplar, representativo da qualidade elevada desta DOC. É importado pela Portuscale, mas infelizmente vou ficar devendo o preço ok?

4D

Para completar, só faltaram dois brancos muito particulares, dos quais eu gostaria de fazer uma pequena propaganda, o Porto Branco (sim, ele existe!) e o Madeira, principalmente aqueles feitos com as castas brancas, Sercial, Verdelho, Terrantez, Bual e Malvasia. São vinho únicos e deliciosos. Se você ainda não conhece, prove!

Dúvidas sobre meu sistema de pontuação? Leia o post “Degustações e Pontuações”.

Grande abraço e até a próxima.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Setúbal – António Saramago e o Fim da Jornada

Como tudo o que é bom tem um fim, com esta viajem por Portugal não seria diferente... Depois de nossa visita a Quinta das Bagéiras, na Bairrada, rumamos de volta a Lisboa, para o último estágio de nossa jornada. No caminho, falaram alto o turismo e a religiosidade, e fizemos uma breve parada (50min) em Fátima, para conhecer o santuário, e chegamos a Lisboa já durante a noite.

Santuário de Nossa Senhora de Fátima
Lisboa...
No dia seguinte, meio período para conhecer a cidade, caçar um Queijo da Serra da Estrela, que ainda não tínhamos provado, e no fim da tarde, rumo sul, novamente para Setúbal, agora para uma visita e jantar na companhia do Mestre António Saramago. Já falei um pouco de António Saramago no post “Alentejo – Vinícolas Monte da Ravasqueira e Herdade dos Coelheiros”, mas ali estávamos provando os vinhos da Coelheiros, vinícola que, embora tenha a imagem de seus vinhos intimamente ligada a Saramago, não pertence a ele. Logo, conhecer a “casa” do mestre, e provar seus grandes vinhos in loco, seria uma oportunidade mais do que especial.

O delicioso Queijo da Serra da Estrela. E eu garanto que essa Coca Cola não é minha...
Coloquei o “casa” entre parênteses ali em cima por um motivo. Ao contrário do que muitos possam imaginar, a António Saramago Vinhos não possui cantina, e aliás, nem vinhedos!!! Pois é, ao longo de décadas atuando no mercado, Saramago cultivou uma preciosa rede de contatos na região de Setúbal, rede esta que permite a produção de grandes vinhos, verdadeiramente diferenciados, sem a necessidade nem de cantina, nem de vinhas. Saramago aluga um espaço ocioso dentro de outra vinícola, onde ele vinifica, matura, engarrafa e armazena seus vinhos, e compra as uvas de terceiros, mas apenas a melhor uva, dos melhores produtores, como seria de se esperar. Apenas no Alentejo, onde produz os já citados aqui Scancio Reserve e Private Selection, é que a António Saramago Vinhos possui vinhedos, mas não em sua região-sede, a Península de Setúbal.

Saramago no seu "habitat"
Em nossa breve visitas ao local de produção de seus vinhos, Saramago deu-nos a oportunidade de provar, ainda nas barricas, sua última criação, um Castelão topo de gama, que deverá ficar entre o seu ícone, o Dúvida, e o também Castelão António Saramago Reserva. Vem mais um grande vinho por aí, com muita concentração, mas desde já grande elegância em boca, com taninos muito finos. Os meses que ainda passará nas barricas lhe fará bem...

Não sei qual vinho vai sair daqui, mais eu sei que vai ser bom!
Seguimos, então, para nosso jantar de encerramento, na casa de Saramago, e na companhia de toda sua família, os filhos, Nuno e António, a nora Vânia, e, muito mais importante que o próprio António Saramago, a simpatia em pessoa, sua esposa, Dona Ausenda Saramago, um doce...

Em tão ilustres companhias, pudemos encerrar em grande estilo nossa jornada, com um jantar impecável, e a degustação dos demais vinhos do Mestre, conforme segue:

1 – Risco Branco 2009
Vinho regional, corte de Arinto e Fernão Pires, com nariz cítrico, leve floral e mineral. Em boca, sápido, fresco, de média persistência.
3D+

2 – Risco Tinto 2009
100% Castelão, com um belo tom rubi, nariz de frutos vermelhos frescos, e uma pontinha de tostado. Em boca, mais fruta, taninos macios, finos, bom frescor e equilíbrio, com média/longa persistência.
3D+

3 – Risco Reserva Tinto 2009
Corte de Alicante Bouschet, Castelão, Cabernet Sauvignon e Trincadeira, com frutos mais maduros, especiarias, discreto vegetal, macio, com muitos e finos taninos, e retro gosto a baunilha e tostado.
4D

4 – António Saramago Reserva 2009
Elegante corte de Castelão, Touriga Nacional e Alicante Bouschet, com notas balsâmicas, fruta em compota, terciário. Taninos finos e equilibrados, bom frescor, macio e longo. Um vinho de classe e estilo.
5D

5 – Dúvida 2005
Alentejano. Um grande vinho, eleito o melhor de Portugal em 2009, um corte de Aragonês, Trincadeira e Grand Noir, encorpado denso, com frutas negras, flores, especiarias, caramelo e cacau torrado. Em boca, fino, elegante, amplo e longo, muito longo.
5D

6 – JMS Moscatel de Setúbal Superior 1993
O “bombomzinho” de Saramago, vinho superior, do qual apenas 1000 meias garrafas foram produzidas, em homenagem ao pai do enólogo. Servido ao fim do jantar, como um brinde de encerramento, não só ao jantar, mas a toda nossa viagem. Um vinho que faz jus a sua raridade, muito complexo, com uma linda coloração âmbar, cascas de laranja, mel, frutas em compota, especiarias, notas oxidativas e balsâmicas. Em boca, cremoso, untuoso, intensamente doce, com excelente equilíbrio, garantido pela sua ótima acidez. Interminável e perfeito...
6D

Depois deste verdadeiro néctar, hotel, e no dia seguinte aeroporto, de volta ao Brasil. Ficaram só as saudades de Portugal, ...e os quilos acumulados...

Saudades de Portugal...
O premio pela vitória no Portugal Wine Expert São Paulo não poderia ter sido melhor. Esta viagem foi um aprendizado único, de valor inestimável. A ViniPortugal deixo meu sincero agradecimento, pelo apoio dado a esta iniciativa, que por certo contribuiu de forma decisiva em reforçar a imagem do vinho português no Brasil.

Isso tudo não seria possível também sem a iniciativa do Sommelier José Carlos Santanita, responsável pela organização, e sem a participação decisiva de sua empresa, a Wine Academy Portugal, que já tem um papel de destaque no enoturismo regional em Arraiolos, Alentejo, e tem desenvolvido no Brasil um trabalho muito significativo, voltado à formação de profissionais, e também a maior difusão da cultura do vinho entre leigos e connoisseurs. Para quem estiver a caminho de Portugal (ou já estiver por aí...) recomendo uma visita ao site da Wine Academy.

Deixo também meu agradecimento aos produtores que apoiaram esta ação, foi um grande prazer poder visitar tantas e tão variadas vinícolas, compondo um panorama mais amplo de tudo o que Portugal tem a oferecer-nos.

Bom, Portugal fica por aqui, ou pelo menos esta viagem. Nos próximos posts, voltamos a conversar sobre outros temas. Espero que vocês tenham gostado, e agradeço a todos que, de alguma forma, me acompanharam nesta jornada.

Dúvidas sobre o meu sistema de pontuação? Leia o post “Degustações e Pontuações”.

Grande abraço e até a próxima.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Bairrada – Leitões e Quinta das Bágeiras

No caminho para Lisboa, eis a Bairrada, parada estratégica para o almoço, e como não poderia deixar de ser, bons vinhos. A Bairrada abrange praticamente todo o território das colinas que demarcam o limite do Dão até o Atlântico. É uma região de clima mais úmido que a média de outras regiões importantes, o que consequentemente trará dificuldades para a maturação das uvas e para o controle de pragas na vinha.


As castas símbolo aqui são a tinta Baga, e as brancas Bical e Maria Gomes (ou Fernão Pires). O solo é pesado, argiloso, o que resulta em vinhos mais encorpados. Isso somado ao toque rústico natural da Baga resultará em tintos estruturados e com potencial de guarda, muitas vezes até difíceis de degustar quando jovens. Nos dias de hoje, uma série de processos enológicos mais modernos tem resultado em vinhos mais macios e prontos, tendência esta iniciada por pioneiros como Luís Pato, que assumiu como missão a tarefa de “domar” a Baga, tornando-a uma uva mais comercial e acessível.

Entrada da Quinta da Bágeiras
Além dos bons vinhos tranquilos, a Bairrada também tem grande potencial para a produção de bons espumantes, em especial pelo método clássico, com a segunda fermentação em garrafa, e foi parte deste processo que pudemos conferir mais de perto na Quinta das Bágeiras.

A Bágeiras é uma vinícola relativamente pequena, familiar, que iniciou suas atividades no fim dos anos 80. O proprietário, Mário Sérgio Alves Nuno, participa de todo o processo, e é atento aos menores detalhes. A Bágeiras produz ótimos tintos e brancos, muito bons mesmo, mas é nos grandes espumantes que está sua grande vocação, vinhos complexos e longevos, cujas provas compartilharei a seguir.

Fomos recebidos primeiramente pelo Bernardo, um moçambicano autointitulado “pau-para-toda-colher”, que nos guiou em uma didática visita pelas caves da Bágeiras, mostrando na prática todo o processo de produção de espumantes pelo Método Clássico.
O "Pau-Para-Toda-Colher" Bernardo

As leveduras e a mágica da autólise
Está tudo lá, as pupitres, os vinhos antigos ainda sur lie, aproveitando-se das vantagens do processo de autólise, os equipamentos de dégorgement. A vinícola conta ainda com estoques de suas safras mais antigas, em especial o Colheita 1989, que ainda esta disponível na vinícola.
Pupitres
Reserva de safras antigas. Imagina se cai a última garrafinha la de baixo...
Além dos vinhos, a Bágeiras ainda produz, em pequenas quantidades, um delicado vinagre de vinho tinto, com vinhos base de Baga, que passa por um cuidadoso e longo processo de acetificação natural, por no mínimo 15 anos em barricas, além de dois destilados, uma bagaceira aromática e intensa, e um ótimo brandy, destilado pelo método charentais, e envelhecido por no mínimo dez anos antes do engarrafamento; macio e complexo.
Só para lembrar da "pequena" pressão de 6 atmosferas que se encontra dentro de uma garrafa de espumante.
Porém, a parte dos vinhos, o grande destaque ficou por conta do almoço. Após um entrada “levinha”, arroz de cabidela, que nada mais é do que um arroz cozido com os miúdos do porco, em seu sangue, degustamos (sim, esse é o termo que se aplica), o incomparável Leitãozinho da Bairrada, macio, com a carne desmanchando, pele clarinha e crocante, pouquíssima gordura e sabor e texturas delicados. O correto serviço do Leitão foi garantido pelo próprio Mário Sérgio, ele mesmo membro da Confraria do Leitão da Bairrada, que se dedica a manter inalterada a tradição que envolve esta iguaria regional. O ponto correto do assado, segundo a tradição, acontece quando é possível separar a cabeça do leitão do corpo utilizando a borda de um prato. Uma cena pitoresca, cuja foto, infelizmente vou ficar devendo acabaram as pilhas da máquina... Para quem não provou ainda esta iguaria, eu recomendo, vale a viagem.
Aqui nós comemos o Leitão. Depois desta foto, acabaram minhas pilhas...
Mas, de volta ao nosso tema central, vamos aos vinhos degustados na Quinta das Bágeiras:

1 – Espumante Brut Reserva 2009
Leve nota de fermentação, fruta branca e leve floral. Ótima mousse, grande frescor, discreto amargor e média longa persistência.
4D+

2 – Espumante Grande Reserva 2003
Mel, frutas secas, leve balsâmico. Excelente frescor, complexo e longo. Já com um pouco menos de gás.
4D+

3 – Espumante Colheita 1989
Um espetáculo, complexo, evoluído, cogumelos, frutas secas, etéreo, bom perlage, embora não muito intenso, cremoso, muito longo, quase um grande Champagne.
5D+

4 – Colheita Branco 2010
Corte de Maria Gomes, Bical e Cercial, com fruta amarela delicada, algo de floral, ótimo frescor, boca cítrica, macio e longo.
3D+

5 – Garrafeira Branco 2009
Corte de Maria Gomes e Bical, com notas marcadas de baunilha e fermento, por conta da fermentação em barricas. Fruta amarela mais madura, cera, bom frescor, fino, longo e harmônico, complexo.
4D+

6 – Reserva Tinto 2008
Corte de Baga e Touriga Nacional, com boa fruta, madura e limpa, algo de floral. Bom frescor, ótima adstringência, com taninos muito finos, longo e equilibrado.
4D+

7 – Garrafeira Tinto 2004
Um Baga maduro, balsâmico, com fruta em compota, estragão e alcaçuz. Grande frescor, finíssimo, longo, muita especiaria no retro olfato. Harmônico, um grande vinho.
5D

Ótimos vinhos, comida de cair o queixo, anfitriões simpáticos e acolhedores, tudo perfeito, um grande encerramento, não é? Pois é, mas ainda faltava um último jantar...

Dúvidas sobre o meu sistema de pontuação? Leia o post “Degustações e Pontuações”.

Grande abraço e até a próxima.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Alentejo – Vinícolas Monte da Ravasqueira e Herdade dos Coelheiros

Começamos o dia pela Monte da Ravasqueira, bela propriedade localizada em Arraiolos, cidade famosa por seus tapetes. A Ravasqueira faz parte de um projeto mais amplo, que envolve a produção de azeite, mel, cortiça e a criação de cavalos lusitanos, além do enoturismo, preocupação que pudemos observar em mais de uma vinícola ao longo da viagem. Ali pudemos visitar os vinhedos, que incluem além das tradicionais castas portuguesas, como arinto, antão vaz, trincadeira e touriga nacional, mais comuns no Alentejo, outras castas menos comuns, como alvarinho, viognier, petit verdot e outras. As instalações são modernas, e a produção conta com a consultoria do talentoso enólogo Rui Reguinga.


Acima, cascas de sobreiro secando ao sol antes de seguir para o fabricante de rolhas; abaixo, montado da Ravasqueira, com seus sobreiros, oliveiras e cavalos.

Para a degustação, foram apresentados quatro vinhos, com suas notas a seguir:



1 – Monte da Ravasqueira Branco 2010
Corte de Alvarinho, Viognier e Arinto, fermentado 80% em inox e 205 em carvalho. Apresenta-se fresco, com notas de cítricos, maçãs, pêssegos e ervas, com um discreto amargor no final e média/longa persistência.

3D+


2 – Monte da Ravasqueira Rose 2010
Obtido a partir das castas Alfrocheiro, Aragonês e Touriga Franca. Intenso, floral e frutado, tutti-frutti, agradável e fresco.

3D+


3 – Monte da Ravasqueira Tinto 2010
Syrah, Alicate Bouschet, Touriga Nacional, Aragonês, Trincadeira, Touriga Franca e Petit Verdot, resultando num vinho aromático e complexo, mas ainda um pouco nervoso pela juventude, com algo de floral na boca. Muitos taninos, finos, mas ainda jovens, com média/longa persistência. Precisa de tempo...

3D+


4 – Vinha das Romãs 2008
Principalmente Syrah e Touriga Nacional, com pequenos acréscimos de Alicate Bouschet e Touriga Franca, passando nove meses em barricas novas. Fruta bem madura, integrada com a madeira, baunilha e especiarias, com bom frescor e adstringência, muitos e finos taninos, muito longo.

4D+


Pudemos também provar o azeite, produzido apenas em pequenas quantidades, para venda no local, muito aromático e equilibrado. Uma curiosidade ficou por conta da ampla coleção de carroças e charretes do proprietário, algumas com mais de 200 anos, todas restauradas e catalogadas, num museu dentro da vinícola.

Vinhedos da Ravasqueira



Em seguida, fomos a Herdade dos Coelheiros, propriedade familiar com cerca de 800 hectares, e que além de bons vinhos, produz azeites, cortiça, e conta com o maior pomar de nogueiras da Europa, produzindo nozes de 6 variedades diferentes. Quanto aos vinhos, a Herdade conta desde o início com a consultoria do Mestre António Saramago, que, para nossa surpresa, guiou-nos em nossa visita.




Entrada da Herdade dos Coelheiros e o Mestre António Saramago


Para aqueles por algum motivo obscuro não conheçam António Saramago, saibam que se trata, apenas, de um dos maiores enólogos em atividade, não só em Portugal, mas em todo o mundo. Formado em Bordeaux, entre outros, pelos grandes enólogos Peynaud e Riberau-Gayon, surpreende tanto pelo seu grande talento e pelas suas grandes criações, como pela sua humildade e acessibilidade, algo infelizmente não tão comum entre os grandes nomes do mundo do vinho.
As instalações da Herdade são muito organizadas e modernas, contando inclusive com uma ampla câmara fria, onde repousam as barricas dos vinhos brancos que deverão fermentar ali. Os vinho são fermentados por parcelas, conforme suas características particulares, para só depois serem feitos os cortes. São utilizadas castas regionais, com algo de chardonnay, syrah, merlot e cabernet sauvignon, porém, os vinhos principais da casa, tanto tintos como brancos, já tem predominância das castas francesas, tendo em vista que tanto o proprietário da Herdade, quanto o enólogo Saramago são francófilos assumidos.




O tranquilo repouso dos vinhos da Herdade


Degustamos ao todo nove vinhos, quase toda a linha da vinícola, conforme segue:


1 – Ciranda Branco 2009
Antão Vaz, Roupeiro e Arinto, com frutas amarelas e ervas, ótima acidez, algo de lima, média persistência.

3D


2 – Vinha da Tapada Branco 2010
Roupeiro, Antão Vaz e Arinto, mais floral, com alguma fruta, boca fresca e macia, sápido, com média/longa persistência.

3D


3 – Tapada de Coelheiros Branco 2009
Roupeiro, Arinto e Chardonnay, parcialmente fermentado em carvalho, com mineral bem marcado, e fruta bem integrada, com um leve lácteo, bom frescor e longa persistência.

4D


4 – Tapada de Coelheiros Chardonnay 2009
100% fermentado em barricas novas de carvalho francês, é o “borgonha alentejano” de Saramago, complexo, com tostado e manteiga, mel, mineral, fruta austera. Em boca, amplo e macio, fresco, longo, com retro olfato de ervas e especiarias.

5D


5 – Ciranda Tinto 2010
Trincadeira, Aragonês e Syrah, frutado intenso, leve floral, fresco, com poucos taninos e média persistência.

3D


6 – Vinha da Tapada Tinto 2009
Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Syrah e Castelão. Bom fruta, algo de azeitonas e bacon, defumado, fresco, com taninos finos, longo.

3D+


7 – Tapada de Coelheiros Tinto 2007
Cabernet Sauvignon, Trincadeira e Aragonês, austero, com cassis e especiarias, madeira discreta, com taninos finos e abundantes e longa persistência.

4D


8 – Branca de Almeida Tinto 2007
Merlot, Trincadeira e Alicante Bouschet, com doze meses em carvalho. Fruta negra madura, notas animais, couro, floral, leve tostado e especiarias, fresco, macio, taninos finos, final longo e aveludado.

4D+


9 – Tapada de Coelheiros Garrafeira 2007
Cabernet Sauvignon e Aragonês, complexo e delicado, frutas negras e especiarias, em boca, mais frutas vermelhas, como framboesas, amplo, com bom corpo e frescor, taninos finíssimos e longa persistência.

5D


Depois dos vinhos, um pouco da culinária alentejana, com salada de feijões e atum, salada de grão de bico e bacalhau, orelhas de porco ao vinagrete, e um intenso cozido de pé de porco, com bastante coentro, tudo com baixo teor de gorduras e poucas calorias, coisas de Portugal...



Uma refeição leve e equilibrada...


Deixamos a Herdade e Coelheiros então com destino a0 centro da já citada Arraiolos, que goza de um cenário bem com a cara do Alentejo, para uma visita a sede da Wine Academy, empresa de enoturismo e formação de José Santanita, e organizadora do Portugal Wine Expert, para, a seguir, voltarmos à estrada, rumo ao Tejo, região da qual falaremos nos próximos posts.
Dúvidas sobre o meu sistema de pontuação? Leia o post “Degustações e Pontuações”.
Abraços e até a próxima.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Alentejo, Onde Tudo É Feito Com Calma...

Primeiro um esclarecimento; em nossa volta ao continente, a primeira parada foi a Herdade da Comporta, na Península do Setúbal, porém, nosso encerramento da viagem foi também em Setúbal, com os vinhos de António Saramago, portanto, vamos pular a Herdade da Comporta e seguir direto até o Alentejo ok? Quando voltarmos à Setúbal conto um pouco sobre a Herdade da Comporta.
Após nossa visita à Comporta, seguimos diretamente a cidade de Évora, no coração do Alentejo, onde ficaríamos hospedados. Évora é uma cidade antiga com suas origens remontando aos tempos do Império Romano, e tem um belo centro histórico, ainda com muitas construções medievais.




Évora, Linda!!!


Após instalarmo-nos, seguimos para um jantar no Convento do Espinheiro, belíssimo hotel, um dos mais luxuosos de Portugal, onde desfrutamos de um delicioso jantar na adega do convento. Ali pudemos contar com a presença de Cristiano Santos, Sommelier do hotel, e de Duarte Leal da Costa, proprietário da Ervideira, vinícola de Reguengos de Monsaraz, e profundo conhecedor da delicada química envolvida na produção de grandes vinhos.



Entrada do Convento do Espinheiro

O jantar foi uma oportunidade de aprendizado intenso, pela presença de Duarte, e ainda de degustar bons vinhos acompanhados de boa comida. Os pratos eram todos releituras contemporâneas de clássicos alentejanos, abarcando ingredientes como as migas, o porco preto, farinheiras e os delicados e “pouco calóricos” doces conventuais, todos preparados com maestria pelo Sous-Chef Bouazza Bouhlani. Já quanto aos vinhos provados, destaco os seguintes:

1 – Vinha d’Ervideira Espumante Bruto NV
Corte das castas Perrum e Antão Vaz, leve e agradável, macio e persistente.

3D

2 – Conde d’Ervideira Reserva Branco
Desculpem, mas não anotei a safra. Trata-se de um Antão Vaz, amadurecido em barricas novas, com o processo de batonnage, o que lhe confere maior cremosidade e complexidade aromática. Notas de baunilha e fruta bem integradas, com média acidez e longa persistência.

3D+

3 – Scancio Reserva 2008
Obra de António Saramago, em parceria com Arthur Azevedo, da ABS-SP, e José Carlos Santanita, organizador do Portugal Wine Expert e desta viagem. Um corte de Grand Noir e Alfrocheiro, com 12 meses em barricas. Nariz austero, com notas da madeira, muita fruta na boca, fino e longo.

4D

4 – Scancio Private Selection 2008
Corte de Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet, com 24 meses em barricas. Intenso e concentrado, com coco queimado, cassis e framboesa, encorpado, macio, longo, com bom potencial de guarda.

5D



A cara do Alentejo, Arraiolos...

Depois, retorno ao hotel, para uma boa não fim da tarde, um breve passeio por Évora e seus monumentos, bem como a feira da Festa de São João, muito valorizada pelos portugueses, para, no dia seguinte, partir com direção à região do Tejo, antigo Ribatejo.
No próximo post, um pouco mais sobre o Alentejo, suas vinícolas e seus vinhos.
Dúvidas sobre meu sistema de pontuação? Leia o post “Degustações e Pontuações”.
Grande abraço e até a próxima.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Madeira – Vinícolas Barbeito e Madeira Wine Company

Em primeiro lugar, vale esclarecer que hoje a Ilha da Madeira conta, segundo o Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira (IVBAM), com apenas 7 produtores do Madeira fortificado, embora o número de viticultores seja muito maior. Isto posto, fica claro que, além de um significativo esforço conjunto na divulgação e fortalecimento da marca Vinho da Madeira, cada um há de empreender esforços significativos no sentido de reforçar sua individualidade e particularidade em relação aos demais, fato este que pudemos verificar em nossas duas visitas.
Para começar, Vinhos Barbeito; uma empresa familiar, fundada em 1946, e relativamente pequena. Desde 1991, a Barbeito abdicou da produção e venda de vinhos simples a granel, e passou a dedicar sua atenção a produção e engarrafamento de Madeira de qualidade. Passou também a atuar por meio de uma Joint Venture com a Kinoshita International, importador japonês de vinhos e destilados, o que deu novo fôlego a empresa nesta nova fase, focada mais em qualidade do que em quantidade.





Istalações e Barricas da Barbeitos


Foram degustados ao todo 17 vinhos, dos mais simples, a base de Tinta Negra Mole, aos varietais mais nobres. A curiosidade ficou por conta de quatro amostras de tanque, da casta Tinta Negra Mole, sendo duas da safra 2010 e duas da safra 2008, onde pudemos verificar a influência de dois diferentes processos de vinificação; a maceração e fermentação em lagares, com a presença das cascas, e a bica aberta, onde o mosto é removido e fermentado sem a presença das cascas. Nas amostras mais jovens, o vinho fermentado em lagar apresenta mais intensidade de aromas e sabores, porém, após dois anos apenas, o vinho obtido pelo método de bica aberta, embora menos frutado, apresenta maiores complexidade, equilíbrio e elegância. Seguem as notas de degustação completas:



Ossos do ofício...


Tinta Negra Mole


1 – Rainwater 5 Anos
Da linha mais simples da casa, meio seco, com notas marcadas de frutas secas e boca limpa. Um bom aperitivo. 3D
2 – Island Rich 5 Anos
Também dos mais simples, agora no estilo doce. Ameixa em compota e tostado, com boa acidez e doçura equilibrada. 3D
3 – Tinta Negra 2010, Tanque 77, Lagar
Coloração rubi, frutado e vinoso, leve empireumático, com alguma presença de taninos, meio doce, alcoólico, com média persistência. 3D
4 – Tinta Negra 2010, Tanque 79, Bica Aberta
Pouco aromático, mais doce, mais ácido. Equilibrado, com maior persistência. 3D
5 – Tinta Negra 2008, Casco 720, Lagar
Chocolate amargo, tostado intenso, alguma fruta, bom frescor, meio seco, agradável, com média persistência. 3D
6 – Tinta Negra 2008, Casco 111, Bica Aberta
Mais complexo, casca de laranja e especiarias, leve amargor, meio doce, equilibrado e longo. 3D+
7 – Single Harvest 2000
Meio seco, com 3.061 garrafas produzidas. Aromas de tostados e cítricos. Fresco, sápido, discreto taninos e média/longa persistência. 3D+
8 – Colheita 2002 Single Cask
Doce, com 1.035 garrafas produzidas. Frutas amarelas em compota, ótima acidez e equilíbrio. 3D+
9 – Colheita 1995 Single Cask
Meio doce, com 988 garrafas produzidas. Coloração mais intensa, com flores e especiarias, ótima acidez e longa persistência. 3D+


Castas Brancas


1 – VB Reserva
Meio seco, com 2.478 garrafas. Pouco usual corte de Verdelho (60%) e Boal (40%). Nariz agradável e austero, menos acidez e mais estrutura, com um discreto amargor. 3D
2 – Verdelho Old Reserve 10 Anos
Quase seco, com chocolate ao leite, nozes e cravo. Sápido, com bom fresco e sensação de boca limpa. 3D+
3 – Boal Old Reserve 10 Anos
Meio doce, com um nariz mais austero, frutas secas e cristalizadas. Leve chocolate em boca, agradável e equilibrado. 3D
4 – Malvasia Old Reserve 10 Anos
Doce. Leve mineral e marcadas notas oxidativas, frutas secas, laranja, boa acidez e persistência. 3D+
5 – Malvasia 2000 Single Cask
Doce, com 980 garrafas engarrafadas em novembro/2010. Mineral bem marcado, com uma doçura gostosa e equilibrada. Média/longa persistência e retro olfato evocando laranjas. 4D
6 – Sercial 1988 Frasqueira
Meio seco, com 900 unidades engarrafas em janeiro/2011. Nariz delicado, com notas florais e oxidativas. Sápido, equilibrado, com longa persistência. 4D
7 – Boal 1978
Meio doce, com 618 unidades engarrafadas em janeiro/2011. Achocolatado, crème anglaise, frutas secas, boca cheia, jovem, longo, com leve adstringência e retro olfato de manga verde. Muito bom. 5D
8 – Malvasia 20 Anos
Meio doce, 874 unidades engarrafadas em novembro/2010. Intenso, etéreo, fresco, equilibrado e harmônico. 5D
Depois desta “pequena” sequência, um rápido almoço a beira mar, com o típico peixe espada preto, acompanhado de um delicado molho de maracujá e banana, todos ingredientes tradicionais da Ilha; e a seguir, Madeira Wine Company.


Entrada da Madeira Wine Company


A Madeira Wine Company surgiu em 1913, como Madeira Wine Association, sendo então uma associação comercial, que visava concentrar os esforço comerciais de vários produtores sob uma única bandeira. Com o tempo, mais e mais empresas juntaram-se a associação, que veio a se tornar uma empresa de fato, proprietárias das marcas Blandy’s, Leacock, Cossart-Gordon e Miles, a mais antiga datando de 1760. Desde o princípio dos anos 80 a família Blandy, residente na ilha desde 1811, assumiu o controle da empresa, e constituiu em 1989 uma sociedade com a família Symington, tradicionais produtores de vinho do Porto, o que trouxe um novo impulso as vendas da MWC.
As instalações da MWC são grandes para os padrões da Ilha, contando inclusive com sua própria tanoaria, e uma grande armazém climatizado em “agradáveis” 38°C, a fim de permitir aos vinhos, quer seja em tanques de epóxi, quer seja em cascos de carvalho, desenvolver seu caráter típico.


Tonéis de vinho envelhecendo a "agradáveis" 38°C


Para a degustação, 6 vinhos representativos das diversas linhas da casa, conforme segue.
1 – Duke of Clarence Rich
Vinho da linha básica da Blandy’s, feito a partir da casta Tinta Negra Mole, e envelhecido por três anos. Oxidativo marcado, figos e caramelo queimado, correto. 3D
2 – Alvada 5 Years
Nova linha da Blandy’s, com um visual mais moderno, buscando atingir novos consumidores. Doce, com notas de caramelo mais intensas, bem fresco e estruturado, sem deixar de lado o equilíbrio. 3D
3 – Malmsey Single Harvest 2004
Mineral marcado, fresco, equilibrado e longo. 3D
4 – Verdelho 10 Years
Meio seco, com aromas finos, frutas secas e mineral intenso. Equilibrado e longo. 4D
5 – Malmsey Colheita 1994
Doce, cacau, melado de cana, borra de café. Excelente acidez, longo. 4D
6 – Terrantez 1976
21 anos em carvalho, engarrafado em 1997. Feito a partir da mais rara casta da Ilha da Madeira, e historicamente reconhecida por sua qualidade superior. Como já diz um secular verso da Madeira, “As uvas Terrantez, não as comas nem as dês, pois para o vinho Deus as fez”, o que podemos confirmar neste exemplar. Trufa branca, frutas secas, castanhas, amêndoas e especiarias. Bom corpo, sápido e equilibrado. Boca limpa e interminável persistência. 6D
A parte “triste” da visita ficou por conta de algumas garrafas centenárias, como um Boal 1811, um Verdelho 1822 e um Terrantez 1899, que pudemos ver, tocar, abrir e cheirar... mas não provar... Enfim, nada é perfeito.



Pois é... este eu não provei...


A impressão geral que ficou desta breve visita a Ilha da Madeira foi a de que seus vinhos são um grande tesouro a ser descoberto. Complexo, equilibrados e gastronômicos, com um potencial quase ilimitado de guarda, os Vinhos da Madeira estão, desde algum tempo, indubitavelmente, entre os meus favoritos, de acordo com o estilo para os mais variados momentos da refeição. Se você ainda não provou, prove surpreenda-se com o Vinho da Madeira.
Dúvidas sobre o meu sistema de pontuação? Leia o post “Degustações e Pontuações”.
No próximo post, voltamos ao continente.
Abraço e até lá.

domingo, 24 de julho de 2011

Para Começar: Pastéis de Belém e Ilha da Madeira

Pois é, um bom começo. Depois de um voo noturno da TAP, chegamos a Lisboa às 07h30min da manhã, com uma temperatura de 28°C (!!!), apenas um prenúncio do que nos reservava o verão português. Como bons turistas, seguimos para o café da manhã na tradicional Fábrica dos Pastéis de Belém. Vale destacar aqui que o estabelecimento em questão é o único em Portugal que pode utilizar a nomenclatura “Pastéis de Belém” para seu produto, cabendo aos demais estabelecimentos que produzem pastéis similares a nomenclatura de “pastéis de nata”.
Os tais dos pastéis são realmente muito bons, delicados e saborosos. Em minha modesta opinião, o tal do “segredo” fica por conta da massa, que além de saborosa tem uma crocância inacreditável. Após um breve passeio pela margem do Tejo, nas proximidades do Mosteiro do Jerônimos, voltamos ao aeroporto, agora para um voo de pouco mais de uma hora rumo a Funchal, capital da Ilha da Madeira.





A Casa do Pastéis de Belém e os Próprios...


A Ilha da Madeira fica a cerca de 1000 km de Lisboa, mas apenas 660 km da costa africana, e faz parte de um arquipélago vulcânico que foi descoberto em 1419 e rapidamente colonizado pelos portugueses, devido a sua posição estratégica na rota entre a Europa e as Índias Orientais. Com suas encostas íngremes, forma uma bela paisagem, e um grande desafio a agricultura e mesmo a instalação de habitações. Como destino turístico, é imperdível.
Como qualquer centro populacional da época, os colonos da Madeira plantaram ali a vinha, além de outras culturas agrícolas. Como o vinho em questão tinha que suportar grandes viagens, o mesmo era fortificado, e no decorrer do século XVII, passou a ganhar grande fama o vinho da roda, ou Madeira de Torna Viagem; o vinho da Madeira que ia e voltava ou das índias ou da América no porão dos navios, passando por constantes processos de aquecimento e resfriamento, o que lhes conferia um caráter aromático único, além de maior concentração de acidez e sabores. Após algum tempo os produtores passaram a construir grandes armazéns, sem isolação térmica, os canteiros, onde estas variações de temperatura são parcialmente reproduzidas.


Vista do Hotel na Madeira. Feio né?


Hoje em dia o Madeira é produzido em quatro estilos, a partir de 6 castas. A casta mais plantada é a Tinta Negra Mole, de grande produção, que da origem aos Madeiras mais simples, e que conforme sua vinificação pode abranger os quatros estilos do Madeira, seco, meio-seco, meio-doce e doce. Depois, em menor quantidade, são plantadas as varietais “nobres” da Ilha; Sercial (seco), Verdelho (meio-seco), Boal (meio-doce) e Malvasia, ou Malmsey (doce), além da cada vez mais rara Terrantez (ou Folgosão), reconhecida de longa data pela qualidade elevada de seus vinhos, entre o meio-seco e o meio-doce, mas que produz uma média de apenas 300 kg por hectare, o que para muitos produtores a torna comercialmente inviável. Nos registros oficiais do Instituto do Vinho da Madeira, consta a comercialização de pouco mais de 1.000 litros de Terrantez em 2010, ou seja, nada.
O processo particular de produção do Vinho da Madeira, com um longo envelhecimento sob altas temperaturas, resulta num vinho de acidez pronunciada, devido à redução por evaporação, e aliada a sua doçura característica (que é importante mesmo nos estilos mais secos, ficando acima de 49 g por litro), esta acidez faz do Madeira, em minha opinião, o mais equilibrado e gastronômico dos vinhos fortificados doces.
Nossa passagem pela Madeira incluiu uma visita a Vinícola Barbeitos, em Câmara de Lobos, e a Madeira Wine Company, proprietária da marca Blandy´s, localizada no Funchal, mas destas visitas tratarei com mais atenção em outro post ok?


Paisagem Típica da Madeira


Mas, vamos aos destaques gastronômicos da Ilha! Em primeiro lugar, o Bacalhau, afinal, não se pode passar por Portugal sem provar-se um bom Bacalhau! E na Madeira provei o primeiro dos três que eu provaria ao longo da viagem; uma posta alta, ao forno, com natas e tomates, macio, dessalgado no ponto, e desmanchando ao toque do garfo. Como produto típico, além dos belos e caros bordados, há o Bolo de Mel da Ilha da Madeira, algo como o nosso pão de mel, mas muito mais intenso, com muitas especiarias, e adoçado com melaço de cana; muito bom para harmonização com os estilos mais doces de Madeira.
Para encerrar, em nossa última noite, uma jantar na Churrascaria A Vista d’António, isso mesmo, uma churrascaria! Um pouco diferente das nossas, é verdade, com a grelha dentro de um forno à lenha, mas com carnes muito macias e saborosas. A grande atração da casa é o tal do António, proprietário da casa, apaixonado pelo vinho, e pessoas das mais simpáticas. Ali provamos o afamado Queijo do Azeitão, parente do Serra da Estrela, porém de sabor mais pungente, com seu interior cremoso, puro deleite. Além disso, pudemos provar um vinho regional madeirense, um tinto não fortificado, o Terras do Avô 2009, um corte de Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah produzido pela A Duarte Caldeira e Filhos – Seixal Wines, de médio corpo, boa acidez e fruta, com média persistência e final de boca agradável. Um vinho que classifico como 3D.

Depois disso, graças aos ótimos preços da Carta de Vinhos, nos empolgamos a provar, por um preço inacreditavelmente baixo, até para os padrões portugueses, um Barca Velha 1999, um vinho com aromas difíceis de definir, algo de couro e especiarias, uma fruta ainda presente, bom frescor, taninos finos e longa persistência. Classifico como 5D
E por fim, a grande estrela da noite, um Boal 1930, adquirido de uma reserva particular, com coloração âmbar/castanho, aromas intensos de nozes e avelãs, especiarias e tostado, ótima acidez e equilíbrio, com a doçura no ponto, e uma persistência quase interminável, emocionante. 6D
Com estes grandes vinhos, encerro esta parte do meu relato. A seguir, maiores detalhes sobre a Barbeitos, a Madeira Wine Company e seus respectivos vinhos.
Dúvidas sobre meu sistema de pontuação? Leia o post “Degustações e Pontuações”.
Grande abraço e até a próxima.

Postagem em destaque

Enoturismo em Mendoza

Como parte de nossa nova parceria com a LATAM Travel Shopping Frei Caneca , teremos no mês de Novembro/2016 um imperdível tour por alguma...