quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Loire - Escanção

 

Uma França de Contos de Fadas

 

Quase que literalmente, aliás! Nesse edição vamos conhecer um pouco do Loire, região que leva o apelido de “Jardim da França” por onde passei rapidamente durante o Mundial de Sommeliers realizado em Paris no início de Fevereiro.

É um conjunto de motivos que leva o Loire a ser assim conhecido; falamos de uma região que, ao menos em parte, está bem próxima da capital, Paris, onde um clima temperado, com chuvas na medida certa, propiciam uma paisagem verdejante e atraente, ideal hoje para os turistas de fim de semana, mas em tempos passados o refugio perfeito para a nobreza francesa.

Nobreza essa, aliás, que fez do Loire uma região que tem ainda nos dias de hoje uma grande concentração de castelos, posicionados ao longo dos mais de 1.000km do rio homônimo, que tem sua nascente próxima ao centro geográfica da França e desemboca no Atlântico, próximo a Nantes. Dessa combinação é que advém a referência aos contos de fadas lá do começo, muito dos quais tem sim inspiração na paisagem local.

Mas, fadas e castelos a parte, viemos aqui falar dos vinhos, que fazem dessa região um ponto de atenção para o escanção de onde quer que seja. E logo de início é importante frisar que, ainda que falemos do Loire com uma única região, em poucas regiões produtoras do mundo essa referência é tão incorreta.

Afinal, com mais de 1.000km de rio correndo no sentido Leste-Oeste, uniformidade e unicidade é o que menos encontraremos por essas bandas. Esqueça a relativa simplicidade da Bourgogne, definida por duas uvas, ou Bordeaux, com pouco mais de uma dezena delas, entre tintas e brancas, mas com estilos de vinhos muito bem definidos. Não, o Loire não entra nesse jogo. Falamos aqui de uma colha de retalhos, que em muito podemos comparar com Portugal, onde a cada poucos quilômetros tudo muda, com novos solos, microclimas, tradições, estilos e castas.

Antes mesmo do detalhamento maior, das menores AOCs e suas subzonas, o Loire é usualmente sub dividido em quatro macro regiões, começando pelo Pays Nantais, zona mais próxima ao oceano e fortemente influenciada por ele, Anjou-Saumur, com a cidade de Angers como seu epicentro urbano, Touraine, mais para o interior e, por fim, o Loire Central, já mais próximo da Bourgogne do que das zonas costeiras do próprio Loire.

Ao longo de tantas centenas de quilômetros, cortados por um importante rio e por dezenas de afluentes, forma-se uma impressionante variedade de microclimas, cada um com características muito próprias de solo e com suas próprias tradições vitivinícolas. Nesse cenário, ao longo da história, mais do que naturalmente estabeleceu-se uma ampla variedade de cultivos, com uvas perfeitamente adaptadas às condições de cada local.

Entre as castas brancas, temos três de maior destaque; a Melon de Bourgogne, plantada no litoral e utilizada nos vinhos de Muscadet, a Chenin Blanc, estrela de denominações como Savennières, Quarts de Chaume, Vouvray e outras, além da Sauvignon Blanc, que alcança sua máxima expressão nos vinhedos de Sancerre e Pouilly-Fumé. Já pelas tintas, temos Cabernet Franc e Gamay em Anjou-Saumur e Tourraine, e Pinot Noir no Loire Central.

Mas essa é uma simplificação excessiva, mesmo injusta. Primeiramente não aborda a grande variedade de estilos; brancos dos mais leves e delicados até os de grande corpo em com potencial de guarda de décadas, rosés dos mais variados, tintos sutis para o dia a dia e também de grande estrutura e complexidade, doces que vão de colheitas tardias sutilmente adocicados até vinhos de podridão nobre entre os mais complexos e densos, espumantes e frisantes, tudo isso a mais tudo aquilo no meio disso tudo.

É confuso, sim. E justamente por isso é apaixonante. Talvez mais do que qualquer região francesa é quase que irresponsável tentar resumir o Loire, não uma região mas sim uma congregação de regiões, onde além das castas já citadas encontramos ainda Malbec/Côt, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Grolleau, Negrette e tantas, tantas outras.

Estudar e entender o Loire é certamente dever do bom Escanção, é próprio da natureza de nossa profissão buscar esse entendimento preciso de todas as regiões relevantes. Porém, mais que isso, é um grande prazer na realidade deparar-se com tal variedade e oportunidade de aprendizado em uma só região. Bom, não só uma, pelo menos quatro... Mas vocês já entenderam, não é?

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